Explicando para os meus netos o que significa ser um conservador

 
Chega a ser
constrangedora a diluída crença no debate público brasileiro a respeito daquilo
que vem a ser um conservador. O fato é que no Brasil nunca existiu algo do qual
se possa chamar de tradição conservadora. Pode-se falar em autores
conservadores, mas nada como uma tradição de pensamento conservador.
Hoje, lamentavelmente,
qualquer vínculo a essa noção causa certa repulsa em muitos meios
intelectuais, ao ponto de até ter se tornado comum escrever textos assumindo,
com certo tom de corajosa conquista, a incrível capacidade espiritual de ter conseguido
deixar de ser conservador. Paradoxalmente, o conservadorismo pode ser uma moda passageira na cabeça de muita gente.
Muitos dos
movimentos intelectuais importantes da história não nasceram de dentro da
academia. São sempre grupos marginais os responsáveis por construir alguma
tradição de pensamento. No mundo da cultura e da política, nada emerge da
canetada ou por decreto. Qualquer coisa a que se possa chamar de pensamento
conservador brasileiro ainda não desenvolveu raízes, talvez tenha germinado uma
semente aqui outra ali, mas sem qualquer profundidade.
Não obstante se
afirme o caráter conservador da cultura brasileira, não dá pra falar na
existência de uma tradição intelectual refletindo a respeito dessa mesma
cultura. Intelectualmente somos muito homogêneos: um gramado ralo cobre toda
superfície da nossa mentalidade cultural. E é preciso de um esforço colossal
para romper com isso. Toda gente honesta e prudente teme ter a consciência associada a uma ideologia. 
Todavia, um conservador nada mais é do que aquele que pensa
a partir da relação plural e histórica entre seres humanos vivos e mortos e com
memórias acumuladas num feixe de crenças das quais são suas e partilhadas por
outros de sua comunidade. Isto é, caracteriza-se por aquele que nunca pensa a partir de si mesmo e de uma suposta
autossuficiência, nem da autossuficiência do coletivo. 
A memória, segundo a
mentalidade conservadora, é depósito de experiência reais. Portanto, o conservadorismo não tem, em um primeiro momento, nada a ver com ideologias políticas. E, em última instância, limita-se a uma atitude prudente a respeito da relação entre finitude humana e memória histórica. 
Isso implica que o
conservador pensa a partir da comunhão de experiências reais dada por meio de
expressões simbólicas. Símbolos são propriedades quase que carnais referentes
à consciência da finitude e fragilidade do homem cuja característica
fundamental aponta para realidade de uma relação.
Como diz William James que não deve ser considerado exatamente um
filósofo conservador , “pode-se fazer grandes mudanças, mas não se pode
converter uma catedral gótica em um templo dórico […] as nossas maneiras
fundamentais de pensar a respeito das coisas são descobertas de ancestrais
incrivelmente remotas, que foram capazes de preservar-se ao longo da
experiência dos tempos subsequentes
Isso implica, por conseguinte, o caráter antidogmático da mentalidade conservadora, uma vez que a
noção de mundo não deriva de princípios absolutos fora da experiência real da
história humana. Se há eternidade, essa só tem sentido se acompanha o homem em seu drama. 
Com
efeito, o conservador estima o tempo não como um instante dado na impressão
sensível da percepção de um indivíduo ou da intuição racional de um axioma à
sua consciência. Por isso, deve-se afirmar, ele estará sempre em conflito com o método racionalista
dos estatistas ou o utilitarismo hedonista dos individualistas.
Por um lado, há o
pensamento predominantemente de esquerda. Em contrapartida, temos os
libertários. Ambos são, em última análise, progressistas. Os progressistas de
esquerda são estatistas e fundam-se no axioma da igualdade; os progressistas de
direita são, em geral, anti-estatistas e fundam-se no axioma da liberdade.
Os primeiros
pressupõem a noção de que o coletivo precede objetivamente o indivíduo; o segundo, por sua
vez, que o indivíduo precede objetivamente coletivo. 
A moral do primeiro
grupo é claramente deduzida de um princípio racional: uma intuição dada na
consciência de alguns autodeclarados portadores da responsabilidade de conduzir
a história à realização da justiça social. Em geral, as pessoas são alienadas.
Direito das minorias e ações afirmativas, por exemplo, não são fins em si
mesmos, apenas meios para um bem maior em que todos, obrigatoriamente, deverão
se envolver.  
A moral do segundo
grupo é hedonista: calcula-se o valor do bem à luz da atrofia individualista da
noção de propriedade privada. Não há certo ou errado, só existe liberdade e
não-agressão à propriedade material. O homem relaciona-se atomicamente consigo mesmo. Eis o ápice do solipsismo político. 
Ser conservador não
tem nada a ver com esse dilema e está longe de ser uma tentativa de equalizar as duas mentalidades. E é por isso os dois grupos têm como inimigo
comum os conservadores.  
Aqueles que viajam em busca de sabedoria, andam apenas dentro de um círculo; e depois de todo esforço, percebem quão primitiva é sua ignorância (Joseph Corand, A Flexa de Ouro).   
Viver em sociedade
nunca foi, é e será tarefa fácil. Ninguém nunca teve a oportunidade de pedir
para nascer. Nascer não é uma opção! E, literalmente, a vida nos foi dada.
Quando se nasce tudo está aí: das leis da natureza ao perfil da cultura em que,
cada um de nós, sem nenhuma exceção, foi literalmente jogado. 
Em certo sentido,
há um mundo pronto, não é nem estático e nem completo, mas um mundo originariamente . Não inventamos o mundo, nossas
experiências adicionam fatos novos, mas nunca são experiências tiradas de lugar
nenhum. Há sempre um estofo, uma fonte de afecção e afetividade direta. 
Ser histórico e
participar de uma comunidade significa exatamente isso: ser condicionado a um
determinado lugar e a um determinado momento ou contexto cultural; além disso,
claro, ter uma pluralidade quase inesgotável de características
pré-determinadas das quais irão nos influenciar ao longo de toda nossa vida:
biológicas, sociais, econômicas, culturais etc. Ser, portanto, herdeiro de uma memória.
Não obstante um bom
número dessas características será herdado diretamente da simples e indiferente
brutalidade da natureza e não adianta bater o pé, a natureza é autoritária e
não cede fácil aos nossos caprichos; outras características não serão
oferecidas tão brutalmente. E, apesar da dureza, poderão ser mudadas com o passar
do tempo, por exemplo: a religião dos avôs, certos hábitos alimentares, meios
de comunicação, tamanho dos seios, a cor do cabelo etc.
No momento em que
nascemos já temos, inevitavelmente, pelo menos um pai, uma mãe, dois avôs, duas
avós, quatro bisavôs, quatro bisavós ad infinitum, mesmo que a memória e a mísera vida
não acompanhem o defunto, todos nós deixamos vestígios. E é bem provável já ter
um ou mais tios, uma ou mais tias, um ou mais irmãos. E a não ser que se more
no meio do nada, temos sempre um ou mais vizinhos. Ora, e mesmo morando no meio
do nada, sempre há do lado uma distante cidade vizinha. Não há o que fazer:
nascer é despencar em alguma lugar.
Os inevitáveis pais
e os prováveis tios, tias, irmãos e vizinhos já possuem gostos musicais, falam
um determinada idioma, andam de pé, dão risadas por banalidades, choram, torcem
para algum time, comem, bebem, vão ao banheiro, uns sentados outros de pé, se
reúnem em grupo, uns se odeiam, outros se amam, uns trabalham outros só
estudam, uns trabalham e estudam e outros não trabalham e nem estudam e vivem à
custa dos que trabalham e estudam.
A primeira coisa
exigida, além das elementares necessidades biológicas, é você receber um nome:
Você é filho de fulano, nasceu na cidade tal, seus avôs são esses e
certificamos a sua chegada. O nome é a referência fundamental para romper com
a redutora ideia de que nós somos tão somente uma coisa. O nome será a nossa moeda de troca num rico mercado símbolos;
e nos acompanhará por toda vida e para além dela. Ninguém estampa na sepultura:
certa coisa jaz aqui.
Ainda segundo o
filósofo norte-americano, William James, herdeiro da filosofia escocesa do common sense na américa, as nossas
maneiras fundamentais de pensar a respeito das coisas são descobertas de
ancestrais incrivelmente remotas, que foram capazes de preservar-se ao longo da
experiência dos tempos subsequentes. Nesse caso, nenhum homem é indivíduo ao ponto de ser absolutamente
autossuficiente. Ser homem é ter a consciência de uma insuficiência ontológica. 
Tudo isso revela
algo muito simples a respeito da condição humana: não somos uma unidade
essencial a priori e autossuficiente fechada em nós
mesmos. E também não somos só uma parte de um todo. Somos contraditoriamente
um-e-muitos. Nem um fechado em si
mesmo e nem muitos diluídos em uma
unidade. E é
isso o que se quer dizer com o fato de o homem ser caracterizado como pessoa: a síntese da autoconsciência dessa participação.
A humanidade do
homem, ou seja, a principal característica daquilo que faz um amontoado de células
ser um humano é, justamente, ser uma pessoa.
A realidade pessoal de um homem é um fato intrínseco de irreversível, profundo
e irredutível valor.
Isso significa que
cada um constitui, em sua totalidade, um fluxo contínuo de experiências e
relações construídas historicamente. Não existimos como abstrações: não existe
nem indivíduo e nem coletivo. Indivíduo e coletivo não são entidades
objetivas. Não há substancialidade alguma nesses termos: coletivo e indivíduo.
Pessoas revelam uma
realidade espiritual, literalmente, encarnada e afetiva. O que há é João, José,
Maria, Ana, Pedro, Miguel, Daniel. Há o fato de João ser filho de Paulo, que
estudou com Gabriel, filho de Alberto, e amigo de Luiz, um velho conhecido de
infância que namorou a prima de Juliana, uma menina antipática da primeira
séria cuja mãe sabia fazer bolo de laranja com cobertura de chocolate. A mãe
aprendeu com a avó, cujo marido foi morto na Segunda Guerra e deixou uma
pequena herança pra família que torrou o dinheiro para pagar dívidas
O conservador
considera a
comum-unidade-de-fluxos-contínuos-de-experiências-históricas-entre-pessoas-vivas-e-mortas
(desculpa os hifens, mas estou tentando evitar uma abstração como indivíduo, sociedade,
homem etc) como aquilo que existe. 
Por fim, o conservador concebe o tempo como um contínuo
entre o novo e o antigo, não como uma unidade homogênea imutável ou a partir de
incisivas rupturas. Como diz William James, a novidade se infiltra; tinge a
massa antiga; mas é também tingida pelo que absorve. Nosso passado percebe e
coopera; e no novo equilíbrio em que termina cada passo dado adiante no
processo de aprendizagem, acontece relativamente raro que o novo fato seja
acrescentado como que
cru. As mais
das vezes deposita-se cozinhado, como se poderia dizer, ou guisado no molho dos
fatos antigos

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