sexta-feira, 15 de março de 2013

Bonecas Russas


TREZE DE MARÇO, o Papa Francisco mal começou a esquentar a cátedra e os benfeitores de sempre já acharam meios e motivos para murmurar. O cardeal Bergoglio é conservador de menos. O cardeal Bergoglio é ecumenista demais. O cardeal Bergoglio, afinal de contas, é argentino e torce para o San Lorenzo.

Só há uma coisa pior para a Igreja do que os ateus, militantes ou não: é o advento dos tradicionalistas, para todos os gostos e todas as mesquinhezes, mais papistas que o Papa, certíssimos de suas crenças e de seus rigores. Não lhes passa dúvida alguma no coração, nem por um segundo. É tamanha certeza que não pode haver tamanha certeza. Certezas assim inabaláveis só as têm os soberbos. Em todo crente sincero há um recalcitrante que teme – e faz bem em temer – a falta de fé. Pedro negou a Cristo três vezes. O resumo da história: hoje, Pedro é Francisco.

Desde o fim do Concilio Vaticano II, inúmeros grupos, com maior ou menor grau de influência dentro da Igreja, cultivam, com meticulosa disciplina, o nobilíssimo hábito de apontar as falhas, os pecados e as fraturas internas do clero. É mais ou menos como se você tivesse por costume espalhar, para os vizinhos, todos os defeitos de sua mãe. Mas não basta que eles saibam: eles têm de se convencer de que sua mãe, de uns tempos pra cá, anda longe de ser mulher de respeito. Sua mãe virou mulher da vida. E apontar-lhe as faltas em público é prova da própria santidade.

Tais grupos quase não fazem outra coisa: corroem a Igreja e provocam pequenas dissensões doutrinais. São insuperáveis na arte de lançar suspeitas sobre quaisquer católicos que porventura não sejam tão católicos quanto eles. E é impossível, eu garanto, ser tão católico quanto eles. Nem o Papa – para ser exato: nenhum Papa, de 1965 pra cá – é tão católico.

A atmosfera que promovem é sufocante. A fé morre por asfixia. O neófito toma contato com essas santas figuras e percebe, muito rapidamente, que nunca há de contentar os gregos e os troianos. Os muitos caciques para os pouquíssimos índios.  Me lembro muito bem quando, depois de algum tempo de empedernido ateísmo, tomei contato com tais confrarias. No começo, tudo impressiona: eles devem ser inteligentes demais, esclarecidos demais, perspicazes demais. Estão por dentro dos conclaves, dos concílios e de toda a high society do Vaticano. No fim, tudo enrijece: o caminho mais rápido para o ateísmo é dar ouvidos aos santos. Ali, não Habemus Papam nunca. Ali, a fumaça é sempre preta.

Como as tradicionais bonecas russas, há sempre tradicionalistas mais tradicionalistas dentro de outros grupos tradicionalistas, e uns e outros nunca são tradicionalistas o bastante. Acusam-se mutuamente com razoável frequência, mas todos, porém, concordam que o Papa é o que menos entende do riscado. Ele tirou foto com os protestantes ou ele beijou o muçulmano; ele andou conversando com judeus ou dando ouvidos a socialistas. Fazem da suspicácia virtude teologal.

São sedevacantistas práticos. Nunca vão admiti-lo, é evidente. Sabem das consequências de fazê-lo: o Código de Direito Canónico está sempre à mão. Mas, como dizia certa vez meu amigo Rodrigo Pedroso, se os protestantes inventaram o sola scriptura, os católicos acharam por bem instituir a “livre interpretação da Tradição”. Como ciosíssimos doutores da lei, eles interpretam os movimentos da Igreja – do clero e dos leigos – com um cuidado bastante peculiar: ouviram dizer que “As portas do inferno não prevalecerão”, mas nunca se sabe se o Espírito Santo está mesmo atento.

Basta escrever um texto como este para que eles se apressem nas justificativas piedosas: são leigos defendendo a Igreja, e tudo aquilo que o Papa não diz ex cathedra pode ser discutido abertamente, e as fotos, e os documentos, e os códigos, e a rendinha da roupa do coroinha não está lá muito de acordo com as conveniências, e, vejam só, eles dizem uns para os outros quase entre lágrimas que “Aqueles que lutam pela verdade de Cristo serão mesmo perseguidos, está lá na Bíblia, está lá no manual, está lá na regra, não está?”. E não percebem que talvez seja esse, exatamente esse, seu erro: acreditam-se perseguidos por causa da verdade quando, de fato, são seus maiores e mais íntimos perseguidores. Como Saulo, antes da conversão.