quarta-feira, 25 de junho de 2014

Foi muito bom enquanto durou

Caros leitores,

Considerável porção dos dramas humanos se concentra nos fins de episódios. O presente final, porém, pretende-se desprovido de qualquer tragicidade.

Vocês decerto notaram que o blog já não tem o mesmo gás de antes. Pois bem, onde não há fumaça extinguiu-se o fogo: esta carcaça já não vive, aqueles que a moviam já têm outros interesses e, em vista disso, não há por que não oficializar o fim do Ad Hominem.

Não brigamos nem morremos, apenas... mudamos. Um coletivo de articulistas precisa de pelo menos três membros ativos revezando-se na publicação de textos e alimentando as discussões. O que aconteceu nos últimos tempos foi o gradual desinteresse de alguns dos autores pela atividade de blogar e, à medida que se ia esvaziando a casa, aqueles que ainda têm saco, isto é, ainda escrevem na internet foram perdendo o estímulo de publicar solitários. Consideramos a possibilidade de renovar os membros (o convite a Filipe Celeti, gentilmente aceito, ilustra essa tentativa), mas no fim das contas há uma grande tristeza nesse seguir adiante à força, como essas bandas de rock cujo último membro original morreu há dez anos.

Afinal, o Ad Hominem não era senão a expressão por escrito de debates travados entre um grupo de amigos. O sucesso do blog ao longo desses três anos se deveu justamente à química entre os articulistas, às faíscas produzidas pelo atrito entre suas afinidades e divergências. É difícil imaginar um Ad Hominem feito de outra matéria.

Aquele que um dia se incumbir de escrever a História Concisa da Blogosfera Brasileira pode incluir o seguinte verbete sobre este já saudoso blog:

O Ad Hominem foi um site opinativo criado em 2011 por Rafael Falcón, Joel Pinheiro da Fonseca, Lorena Miranda e Day Teixeira. Em seguida, juntaram-se ao grupo Ronald Robson, Gustavo Nogy, Emmanuel Santiago e Francisco Razzo. (Juliano Torres contribuiu por um tempo, mas a culpa é toda do Joel!) Com atualizações quase diárias, não demorou a tornar-se um dos “must read” da blogosfera conservadora do país. Notório pelas inflamadas polêmicas, seus membros ganharam fama de brigões e não mediram esforços para fazer jus ao epíteto. Com leitores fiéis e inimigos mais fiéis ainda, o blog teve seus trolls de estimação, encorajados pela seção de comentários que, com exceção dos meses finais, era aberta a anônimos e sem qualquer moderação. Falava-se mal, mas se falava da discussão em curso no Ad Hominem. Foi assim até fins de 2013, quando as postagens começaram a rarear e as polêmicas praticamente desapareceram. Desacostumados do tédio, os membros fundadores decidiram pela eutanásia do corpo em sofrimento e extinguiram o blog em junho de 2014.

Agradecemos profundamente a nossos visitantes pela leitura, pelos comentários, pelos xingamentos. A cada um de nós, individualmente, este blog teve grande serventia, pelos mais diversos e impronunciáveis motivos. Esperamos tê-los, se não informado ou instruído, ao menos entretido.

Alguns de nós ainda estão a dar o ar da graça por aí; basta procurá-los onde atualmente se escondem:

Day Teixeira é a engrenagem por trás do Curso de Latim Online. É mãe de família e não se interessa por blogs.

Emmanuel Santiago publicou seu primeiro livro de poemas pela Editora Patuá. Adquira-o aqui.


Gustavo Nogy é editor e colunista da Revista Nabuco. Mantém seu site pessoal.

Joel Pinheiro da Fonseca escreve uma coluna no Liberzone, em breve iniciará discussões filosóficas no Instituto Liberal e também mantém sua filosófica conta no Ask.fm.

Lorena Miranda pendurou as chuteiras do mundo dos blogs. Até o fim deste ano dedicar-se-á exclusivamente ao setor de gestação de bebês. Depois, só Deus sabe.

Rafael Falcón mantém o Curso de Latim Online e segue dando diversos cursos e palestras. Para manter-se informado, basta entrar em seu site pessoal e inscrever-se em sua newsletter.

Ronald Robson é editor da Revista Nabuco. Mantém seu site pessoal e seu tumblr.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A sabedoria na greve do transporte coletivo


Quando lemos sobre as greves nos deparamos sempre com a mesma temática. Disserta-se sobre política, trânsito, política, direito, política, ética, política, urbanismo, política, transporte e política. Mas pouco é percebido acerca do modo como os homens vivem. Perde-se oportunidades valiosas em entender um pouco mais sobre como pensamos e agimos. Há um lado bom na greve. Poucos conseguem ver. Para entender como ela proporciona o exercício do cérebro, temos de entender o cotidiano numa grande cidade.

A rotina numa grande cidade é marcada pelo compromisso e pelo comprometimento. Há horário para tudo. Existe uma agenda a ser concretizada. Os estudos, o trabalho, o almoço, a academia, o lazer e as compras são todos adequados à nossa maneira de estruturar nossa vida ordinária. Numa cidade complexa há horários diversos. São infinitos os arranjos.

Entretanto, os arranjos pessoais dependem de condições externas aos esquemas e anseios internos de cada indivíduo. É por este motivo que uma greve, como a do transporte coletivo, torna a vida de praticamente a totalidade dos indivíduos um caos.

A greve, porém, tem um lado bom. A greve nos força a pensar. A greve nos retira do cotidiano. Do estancamento da rotina. Que beleza maior há do que a possibilidade de inventar o novo? De remodelar-se?

As reclamações sobre o trânsito, sobre ter de mudar o caminho para onde quer que se esteja indo, estão permeadas por uma vontade de não mudança. Deseja-se que o universo seja sempre o mesmo, que tudo esteja sempre no mesmo lugar. A realidade não é assim. Quando se contempla o mundo ao redor percebe-se que a todo instante faz-se necessário alterar os planos.

O homem tem a necessidade de organizar o mundo, que por sua vez é caótico. Não entender esta caoticidade faz com que o indivíduo caia em alguns extremos. Em primeiro lugar não há de se relativizar tudo por conta da dinâmica existente. Em segundo lugar, a insistência no controle leva necessariamente ao sentimento de impotência em poder controlar tudo e todos. É este desejo de universo controlado que mais se sobressai quando vemos o horror estampado na face daqueles que ficam desorientados diante de uma situação nova.

Quando uma pessoa amada morre, termina o amor, não se passa na entrevista, na prova ou no exame, o que fazer? É preciso recalcular a rota. Às vezes voltar e seguir outro rumo. Outras vezes basta fazer uma conversão à direita e seguir para o mesmo alvo por outro caminho. Quando uma ponte cai você procura outra ponte, toma um barco, vai a nado ou simplesmente não atravessa. É o mesmo dilema da pedra no caminho, tão popular e banalizado, mas pouco compreendido em sua essência.

A greve dos transportes coletivos é sábia. Mostra o quão estamos viciados em nossos planos e em nos adequar aos planos de terceiros. Mostra ao trabalhador que ele pode não ir trabalhar quando outros fatores o impedirem. Mostra ao patrão que ele não pode contar com todos os funcionários sempre. Mostra a ambos a necessidade de conhecer rotas alternativas.

A greve nos transportes é sábia. Escancara a quem quiser ver o modo como estruturamos a nossa vida. Além disso, mostra exatamente como é a condição de viventes. Mostra que não há segurança nos planos. Evidencia que a condição humana é a de esgueirar-se em meio as tempestuosas adversidades.

Por conta disto tudo, pode-se amar a greve. Ame a greve! Ame quando a vida te forçar a se reinventar. Contemple, mas não a inércia da pacata existência que te retira a possibilidade de escolher, errar, acertar, mudar, viver.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A Formação de Santo Antônio

Estive recentemente em Porto Alegre, de onde trouxe muitas experiências boas, e um tesouro em especial: minha primeira relíquia de santo, presente de alguém que não suportava passar um só dia sem me prestar algum serviço valioso. Quando recebe um dom desses, um católico decente não tem o direito de considerá-lo mera coincidência: tem de procurar o motivo de ter recebido a graça em questão. E esse motivo, no meu caso, ficou muito claro quando li sobre a vida do santo cuja relíquia eu recebera. Estou seguro de que a generosidade portoalegrense foi apenas o canal usado por Santo Antônio para chegar até mim; um canal, ademais, muito coerente com o proceder daquele homem que, embora famoso pelo discurso, verdadeiramente incendiou a Europa com a espada da bravura e o escudo da humildade. Minha intenção é, portanto, dividir com alguns companheiros de viagem uns poucos pensamentos e sentimentos dentre os que me foram suscitados pela vida do santo.

A 15 de agosto de 1.195, no período de maior esplendor da Idade Média, nascia o nobre Fernando Martins de Bulhões, futuro Santo Antônio de Pádua. Do meu ponto de vista -- é o único que tenho, e é a partir dele que costumo falar -- não foi o acaso que fez de Fernando o descendente de uma antiga dinastia de cavaleiros, remetendo, pelo pai, ao comandante da primeira Cruzada, Godfrey de Bouillon, e pela mãe, ao Rei das Astúrias. Sua linhagem pura sugeria um grande cavaleiro cristão, um Cruzado, um príncipe. A de S. Francisco de Assis, por outro lado, pedia em primeiro lugar um rico comerciante. Deste, a Providência fez um mendigo sem nada de seu, a encarnação mesma da virtude da pobreza; daquele... veremos.

Fernando de Bulhões era um jovem inteligente, artificioso, vislumbrador de segredos e coisas ocultas. O chamado divino à entrega total poderia tê-lo conduzido à Ordem Dominicana -- chamada por antonomásia "Ordem dos Pregadores" -- que teria atendido aos anseios do cavaleiro dentro de si; os dominicanos, afinal, eram os mais "militantes" dos frades, os que mais apareciam, moviam, comandavam. Suponho, porém, que Fernando não quisesse converter seus impulsos naturais em serviço divino, isto é, que não desejasse tornar-se um "soldado do Senhor", por receio de que o santo nome de Deus acabasse por tornar-se uma mera desculpa para satisfazer suas aspirações humanas.

Seu primeiro impulso foi, portanto, esconder-se; lutar contra a ambição de seus ancestrais, contra a glória, contra o desejo de estar à frente. Tendo passado, na infância, por uma escola de catedral (onde recebera a educação de elite da época, isto é, a instrução nas chamadas artes liberais), a vida de isolamento talvez lhe parecesse envolver, por sua própria natureza, o estudo e a meditação. Um mosteiro agostiniano, então, deve ter parecido ideal para contrariar os desejos mundanos de Fernando -- pois (talvez pensasse em seu íntimo) quem quiser seguir a Cristo, negue a si mesmo, tome sua cruz e vá atrás d'Ele.

Aos quinze anos de idade, pois, aquele jovem nobre toma o hábito de Santo Agostinho e adentra uma vida de profundos estudos bíblicos e de oração contemplativa que duraria oito anos. No fim do segundo ano, diz o biógrafo mais antigo, o santo pediu transferência para o Convento de Santa Cruz, em Coimbra, de modo a livrar-se das visitas de parentes e amigos.

Este dado biográfico pode parecer pouco importante ou até antipático; a mim, soa iluminador. Fernando fugia do mundo. Por quê? Para um rapaz de alma tão santa, como hoje sabemos que ele era, não pode ser porque só pensasse em si mesmo, detestando saber das preocupações alheias. Podemos imaginar que fosse bem o oposto: sentia dentro de si a inclinação pelos problemas do povo, pela liderança política, pelo combate em defesa da família e da pátria. O mundo, no sentido mais elevado, o seduzia, e por isso ele o abominava: porque via nisto a ação do demônio, que desejava usar da nobreza dos bens humanos para impedi-lo de entregar-se aos superiores bens divinos. Desde muito cedo, dizia o mesmo biógrafo, Fernando descobrira o tédio das coisas do mundo. As risadas dos amigos desaparecem nos túneis do passado; os beijos e juras da mulher amada não possuem o mesmo efeito na pele ressequida e no coração endurecido de um homem maduro; as vitórias na guerra, por muitas que sejam, não garantem a paz. No fundo, nenhuma das preocupações humanas vale realmente a pena, e ele o percebia.

Contudo, mesmo longe do mundo e das suas ilusões, Fernando não encontrara o caminho para a perfeição que desejava. Um dia, vendo passar os corpos de cinco mártires franciscanos -- condenados por pregar o cristianismo no Marrocos -- sentiu arder o peito. Talvez o que tenha ficado claro para si é que restava uma imperfeição a pesar-lhe as costas: mesmo sem o peso da glória mundana, restava a vanglória acadêmica. Fernando era o orgulho dos professores e colegas, um jovem brilhante e estudioso que dava a todos esperanças de tornar-se um grande doutor agostiniano. Um tal encontro com o lumezinho humilde de S. Francisco foi sentido por ele, com razão, como forte sinal da Providência. Aqueles oito anos o haviam preparado para reconhecer que mesmo os estudos eram um obstáculo à sua aproximação com Deus. Abandonou-os incontinenti. Pediu aos irmãozinhos franciscanos que o aceitassem em sua Ordem, e o enviassem também ao Marrocos para morrer por Cristo. O desejo do martírio o incendiava. Esperava, talvez, pagar logo por todos os seus pecados e fugir deste mundo que o constrangia, que não fazia sentido algum para ele.

Ou porventura havia ali algo de um nobre príncipe, descendente de reis e Cruzados, desejando glorificar, numa morte honrosa, seu nome e o do seu Senhor. Seja como for, Fernando, tendo recebido o hábito de Francisco e o nome de Antônio, não alcançou porém o seu intento. Caiu doente no meio do caminho e, sendo impossível para um doente pregar tanto no Marrocos como em qualquer outra parte, mandaram-no de volta para que se curasse.

Foi só então, sob o nome de Antônio e a aparência de um frade mendicante, que se operou o que poderíamos chamar de vocação definitiva do nosso Fernando. Estando a acompanhar o Provincial de Coimbra na cidade de Forli, ocorreu que alguns franciscanos e dominicanos fossem ali recebidos para serem ordenados sacerdotes. Quando o superior pediu que alguém pregasse o sermão, todos os sacerdotes se recusaram, porque uns haviam pensado que os outros estariam preparados, e vice-versa; de modo que ninguém preparara coisa alguma para falar. Como a necessidade o pedia, o superior escolheu um frade franciscano ao acaso e, tendo em vista sua aparência humilde e sua atitude silenciosa, ordenou-lhe falar o que quer que lhe sugerisse o Espírito Santo. Esse frade era Santo Antônio de Pádua, e logo se viu que seu silêncio não era uma ausência como a da secura do deserto, mas a contenção rigorosa de uma enorme represa.

Naquele momento começava a carreira de orador de Santo Antônio, que lhe renderia, pela profundidade da compreensão, o epíteto de "Arca do Testamento"; pela precisão dos golpes e pelo ardor guerreiro, o de "Martelo dos Hereges". Pregou por toda parte, convertendo leigos e heresiarcas; como um mutirão vivo, por onde passava ia confessando pecadores e sacramentando uniões extra-eclesiais (pelo que se tornou o santo casamenteiro), deixando um rastro de salvação e bênçãos. Quando abria os lábios, tudo o que falava vinha acompanhado de milagres. Ficou famoso o caso em que, pregando próximo ao mar, como o povo zombasse dele e não quisesse ouvi-lo, voltou-se aos peixes; principiou a elogiar as virtudes desses bichos, e como contrastavam com a ignorância e insensibilidade dos homens; e para provar que não falava com sua própria autoridade, mas com a do Pai, eis que um enorme cardume levanta suas cabeças do oceano, à frente de Antônio, para ouvir sua santa voz. E o humilde franciscano, depois de uma vida fugindo da publicidade e da glória à qual o dirigiam o nascimento e a educação, encontra seu propósito em ser exatamente quem era: um cavaleiro, um Cruzado, um representante glorioso do Senhor dos Senhores.

Haveria muitos casos semelhantes, e muitas venturas para contar a seu respeito, em vida como em morte, cheias de sentido espiritual, propósito e valor pedagógico; mas este texto vai ficando longo. Se ele e seu Senhor me derem forças, no próximo treze de junho eu me proponho dar continuidade a este esforço, tosco mas sincero, de retribuir-lhe humildemente qualquer coisa que me seja possível por sua preciosa intercessão e pela inestimável vida que nos deixou, com o fim de a imitarmos, o que desejo que façamos agora e sempre. Santo Antônio de Pádua, rogai por nós.

sábado, 7 de junho de 2014

João Filho e nosso mais recente grande livro de poesia

Período de vacas gordas na poesia brasileira! Enquanto Emmanuel Santiago lança seu Pavão Bizarro em São Paulo, o poeta João Filho, em Salvador, dá à luz A Dimensão Necessária. Assino embaixo de cada palavra de Érico Nogueira sobre este último, e gostaria de acrescentar algumas outras:

Ao meu primeiro contato com a poesia de João Filho, tive a impressão de estar diante de uma locomotiva irrefreável de imagens – o que é o mesmo que dizer que João tem uma evidente imaginação de poeta; que lhe é natural (de)cifrar o mundo poeticamente.

Mas, como sabemos, um artista é antes as margens do rio do que a torrente que estas comprimem (adaptando um repisado refrão socialistóide). E aí, justamente, está a grandeza desse A Dimensão Necessária com que João Filho acaba de nos presentear: ele é abundância imagética, é experimentação sensorial, é coro de sons e de ritmos – tudo isto cuidadosamente dirigido pela atenção do poeta, que é capaz de nos conduzir pelas mais espiraladas especulações existencial-metafísicas sem perder o fôlego ou o tino.

Há quem se compraza nos mais agudos graus do surrealismo na arte; não é o meu caso. Não consigo ver graça no que se diz “esteticamente estimulante” sem comunicar coisa alguma para além de vagas sensações, mesmo quando não tão vagas. Consigo pensar em alguns casos da recente poesia brasileira (não cito nomes para evitar a fadiga) que são bem assim: é bom, mas não interessa; legal, mas demasiadamente cool. Enquanto isso, João Filho mete o dedo nas mais variadas feridas com a naturalidade de quem não saberia fazer diferente; como um baiano bocejando sob o sol, ao som do Requiem de Mozart.

Talvez seja mesmo essa a qualidade primeira dos poemas de A Dimensão Necessária: sendo produtos de muita labuta artística (e aí cabe trocar uma ideia com o poeta), soam naturais, sem esforço. E não se perdem num lirismo inconsequente: não há verso que não continue a busca de sentido do anterior, ao mesmo tempo sem cair no tom professoral que embarga muita poesia dita conservadora (a minha inclusa, ó inferno!). Não, não, João Filho sabe ao melhor de um Murilo Mendes em diálogo com o melhor Drummond; torno a afirmar que o adjetivo primordial de sua escrita é imagética. Ele, ao dizer, sugere, e suas sugestões, de tão nítidas, desenham na mente do leitor com perfeita eloquência a ideia ou sentimento que despertou o poema. Isso é poesia.

De vez em quando me cai nas mãos um livro do qual sei instantaneamente que o lerei por muito tempo. É o caso de A Dimensão Necessária. O último havia sido O Outro Lado, de Ivan Junqueira, no qual encontrei um estudo exaustivo do tipo de rima que gosto de chamar de “invisível”: ela está lá, mas não salta aos olhos; faz-se sentir, mas quase como uma mensagem subliminar. Esse esquema rímico atendeu perfeitamente às demandas de minha sensibilidade pós-moderna, pós-tradicional, pós-camoniana, como se queira dizer. Ora, e não é que, aparentemente, tocou também os ouvidos desse poeta sangue-puro que é João Filho (embora eu não saiba dizer se via Ivan Junqueira)? A primeira seção do livro de João, intitulada “Luz Alheia”, é um belo catálogo de rimas invejavelmente invisíveis e, como se não bastasse, em metro octossilábico! O octossílabo, de que João Cabral (se não me falha a memória, foi ele) bem disse que “raramente tem oito sílabas”, esse metro que foge à retidão das redondilhas, à previsibilidade dos decassílabos e ao serpentear prolixo dos alexandrinos – é o par perfeito da rima invisível como a concebo ideal e como a encontramos em A Dimensão Necessária. Sem dúvida, é fonte de uma esperançosa sensação de pertença perceber o mundo – especialmente o mundo da poesia – em sintonia com pessoas que admiramos.

Por fim digo apenas, João, valendo-me da felicidade que é poder falar com você diretamente, que seu livro me servirá de alimento por meses sem fim, muito dignamente ao lado de Tolentino, Cabral, Cunha Melo. São recíprocas as palavras que me dirigiu em sua dedicatória: João Filho, poeta, raro diálogo.

Concluo com um de meus poemas favoritos do livro, conquanto um dos mais simples:


Pós-fábula


No seu delírio de durar,
buscou a forma permanente,
que atravessasse os mares findos
e desse em praias do presente.

Não bronze ou aço, algo mais dúctil,
que suportasse as elegias
que as estações ditam ao tempo
na sua má caligrafia.

Envelheceu em tal propósito,
a elaborar um falso eterno:
em cada ruga um desespero,
em cada perda um novo inferno.

E não buscava só memória,
nome num muro ou numa mente,
mas extrair o cerne vivo
do que ontem fora e é presente.

Antes do fim logrou, ó suma!,
a sua bilha de aporia,
que lá chegou, nas praias findas –
bela, intocável e vazia.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Lançamento de "Pavão bizarro", livro de poemas de Emmanuel Santiago



Caros leitores, tenho a satisfação de divulgar para vocês o lançamento de meu primeiro livro de poesia, Pavão bizarro, que ocorrerá no próximo dia 14 (de junho) no bar Canto Madalena, localizado na Rua Medeiros de Albuquerque, nº 471, Jardim das Bandeiras - São Paulo/SP. Estarei lá, a partir das 19h00, rabiscando algumas dedicatórias.

Quem não puder comparecer e ainda assim quiser adquirir o livro, por conta e risco próprios, há como fazê-lo pelo site da Editora Patuá (clicando aqui). Devo alertar que o conteúdo de alguns poemas (poucos deles) talvez aborreça alguns cristãos de maior suscetibilidade. Quem quiser se informar melhor, leia a entrevista publicada no Ad Hominem; e o prefácio, escrito por Fábio César Alves, professor de Literatura Brasileira da USP, pode ser lido aqui.

Como aperitivo, aqui vão dois poemas de Pavão bizarro:

Soneto branco

Queria meu soneto da cor branca,
todo branco, que nunca fosse negro,
pois o negro é profundo, cheio de ecos
e coisas das quais só se sente o cheiro.

O branco, não. O branco é superfície
e silêncio, o suspense de um relâmpago
retido na espessura de um espelho;
branco é a cor das coisas sem conceito.

Não o branco solúvel, cor de gelo,
nem o branco volátil, cor de espuma,
nem o branco dourado do ouro branco;

quero um branco absoluto, branco abstrato,
o mais puro, o mais claro — mas sem brilho:
quadrado branco sobre fundo branco.

***

Furor parnasiano

Eu sou a Musa Impassível,
a Virgem de amianto,
impermeável ao sôfrego
fogo de tuas entranhas.

De meus seios, jorram
cascatas de mármore,
arquiteturas, estátuas
de antigos deuses
mutilados, mas
nenhuma gota
que aplaque a súplica
de teus lábios ávidos.

Contra um cinto de castidade
forjado no bronze, a frio,
teus dedos se debatem
em meu corpo seminu;
é inútil. Trouxeste
a chave (de ouro)?

Eu, a Musa Impassível,
estéril e etérea, um frígido
Moloch; em minhas coxas,
o poema é um coito sem gozo.

***

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Joel Pinheiro no Talk Show de Evandro Sinotti para a TV Mix

Neste sábado, gravei uma entrevista para o Talk Show do Evandro Sinotti. Além da ótima experiência, é uma alegria participar de algo em que acredito: um programa local para a TV local (Pirassununga e região) e para a internet, totalmente empreendedorístico e que quer prover conteúdo de qualidade num formato mais denso e menos formatado do que a TV mainstream. Aqui está o resultado:


sexta-feira, 16 de maio de 2014

O melhor começo de livro

por Filipe Celeti


Não é inteligente julgar um livro pela capa, mas não é desonesto aquele que julga uma obra pelo primeiro parágrafo. Uma boa história começa boa. O bom texto te prende, te fascina, te estimula e te alimenta com uma sensação de necessidade de devorar cada pronome, verbo, artigo, advérbio, adjetivo, conjunção etc. Não é à toa que Platão utiliza a metáfora do começo de uma obra para falar da importância de pensar a educação. “O começo é a metade de toda obra” (VI 753e), afirma o personagem “Ateniense” em As leis.

São inúmeros os bons livros que começam bem. Lembro do Morgenstern me apresentando Arquipélago gulag, com a história deles comendo uma salamandra ancestral congelada na Sibéria. Lembro da primeira folheada no clássico Lavoura arcaica e de meu encantamento ao ler os contos sartreanos em O muro. Não poderia esquecer do mestre Machado, encantando antes mesmo das Memórias póstumas começarem, ao dedicar o livro ao verme que roeu o seu cadáver.

Apesar dos brilhantes começos, há um livro, não literário, mas acadêmico, que conseguiu o primor de dissecar e apontar o modo como a sociedade tem vivido. Publicado em 1971, Sociedade sem escolas, de Ivan Illich, transcende o debate acerca da educação. O parágrafo com o qual inicia o primeiro capítulo nos permite discutir até a exaustão, mas pretendo não te cansar, caro leitor.

Illich escreve:

Muitos estudantes, especialmente os mais pobres, percebem intuitivamente o que a escola faz por eles. Ela os escolariza para confundir processo com substância. Alcançado isto, uma nova lógica entra em jogo: quanto mais longa a escolaridade, melhores os resultados; ou, então, a graduação leva ao sucesso. O aluno é, desse modo, «escolarizado» a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de graus com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo. Sua imaginação é «escolarizada» a aceitar serviço em vez de valor. Identifica erroneamente cuidar da saúde com tratamento médico, melhoria da vida comunitária com assistência social, segurança com proteção policial, segurança nacional com aparato militar, trabalho produtivo com concorrência desleal. Saúde, aprendizagem, dignidade, independência e faculdade criativa são definidas como sendo um pouquinho mais que o produto das instituições que dizem servir a estes fins; e sua promoção está em conceder maiores recursos para a administração de hospitais, escolas e outras instituições semelhantes. (p.16)

Ao dizer que muitos estudantes percebem o que a escola faz por eles, de forma intuitiva, Illich está dizendo que, mesmo sem saber ou entender, as pessoas percebem que na verdade a escola não serve pra nada. Após passar mais de 10 anos numa instituição de ensino, muito pouco do que ali foi dito, pensado ou debatido se relacionará com a vida. O meu medo é que a escolarização tem tido tanto êxito, que a quantidade de pessoas que percebem tem diminuído drasticamente. Os alunos formam-se institucionalizados e, quase robôs, pouco fazem ou são capazes de fazer com aquilo que foi programado e registrado em suas mentes.

O que a escola faz? Confunde processo com substância. Faz com que as pessoas confundam anos de estudo com resultados, ter se formado com sucesso. Não demora muito para o pobre perceber que comprou uma ideologia furada. Foi bombardeado com slogans que afirmavam que passar mais anos estudando lhe dá mais chance, e depois percebe que muitas vezes a conclusão de um curso não resulta na mágica entrada para o mercado de trabalho. Percebe também que seus colegas com habilidades esportivas e persistência, outros que cultuaram o próprio corpo, e aqueles que se dedicaram a fazer ruídos com letras sobre gastar dinheiro e dormir com muitas mulheres, “deram” muito mais certo do que os que estudaram com dedicação. Pode perceber também que o culto aos anos de formação impede os anos de experiência. Comprou gato por lebre, ao viver debaixo da institucionalização da educação.

Adentrando o mundo da educação, a confusão entre processo e substância leva a entender o ensino como aprendizagem. O processo do ensino não é o fruto de um ensino bem realizado. Estar presente num ambiente em que existe ensino, não resulta em aprendizagem. Entretanto, vivemos sob o mantra do discurso metodológico confundido com resultados de aprendizagem – quando esta já não foi descartada totalmente em nome do processo oco.

Confundir a obtenção de graus com educação é o que faz a nossa sociedade medir seus índices e multiplicar estatísticas sobre a população escolarizada e o tempo da escolarização. “Veja como estamos mais educados! Passamos de uma média de 5 anos para 8 anos de educação.” Todo tipo de artificio nefasto é utilizado para melhorar os dados que dizem apenas que as pessoas passam mais tempo inútil numa construção arquitetônica denominada escola. A aprendizagem e a educação estão muito distantes disto. Illich mostra ao longo de seu texto como este pensamento se perpetua para angariar mais fundos para esta instituição responsável pela “educação”.

Nesta sociedade confusa, o que mais se multiplica é a inexistência de competentes à medida em que mais pessoas tornam-se certificadas. Muitos querem ter um papel, poucos querem ser, viver e saber. A cultura do diploma é a manifestação da grave doença burocrática que visa impedir que as pessoas sejam o que desejam se não estiverem dentro de critérios puramente arbitrários.

Por último, a cegueira institucionalizada cria um mundo de palpiteiros que, dominando minimamente a língua, pensam-se capazes de dizer algo novo acerca da realidade. A aprendizagem, a educação e a competência não importam, pois o que vale é o processo.

A imaginação também é escolarizada. Lembro de Georges Didi-Huberman falando sobre a imaginação rasgada (déchirée) de nosso tempo, nos impedindo de ver, interpretar o que vemos e de ir para além do que enxergamos. Pode ser este pano de fundo estético o responsável pela aceitação de serviço em troca de valor. Não há criadores de valor no universo de repetidores de ações, incapazes de refletirem sobre o que realizam.

Para além da educação, temos a institucionalização de tudo. Não há mais saúde fora dos sistemas. Os médicos tornaram-se os sacerdotes e feiticeiros, responsáveis pela verdade e pelos encantamentos de vida e de morte. É preciso sempre ter uma instituição para cuidar daquilo que pertence ao indivíduo. Para a segurança temos a polícia, para a defesa temos o exército, para a melhoria de condições de vida temos os programas de assistência social, para a justiça temos os tribunais burocráticos, para a validação de contratos temos os cartórios. Nada escapa da institucionalização. Para viver com quem se ama, para vender um produto e para consumir plantas alucinógenas invoca-se uma instituição que será responsável por aquilo que o indivíduo poderia realizar sem autorização e sem invocar tal autorização. Mas esta é a condição da sociedade escolarizada.

O término do parágrafo de Illich não poderia ser diferente. Quando “saúde, aprendizagem, dignidade, independência e faculdade criativa” são vistas como resultados dessas instituições que dizem ser as únicas responsáveis por tal substância, temos obviamente a demanda infinita de recursos para fazer cumprir tais resultados. É a partir deste mito que escolas, hospitais, tribunais, ONGs, ordens profissionais, sindicatos e legisladores retiram a legitimidade que inventaram para si mesmos como os verdadeiros provedores daquilo que, sem eles, as próprias pessoas poderiam conseguir.

A institucionalização da vida é total. Vivemos na época de delegar aos outros a responsabilidade que deveria nos ser própria. Uma época na qual

o medicar-se a si próprio é considerado irresponsabilidade; o aprender por si próprio é olhado com desconfiança; a organização comunitária, quando não é financiada por aqueles que estão no poder, é tida como forma de agressão ou subversão. A confiança no tratamento institucional torna suspeita toda e qualquer realização independente. [...] Em toda parte, não apenas a educação, mas a sociedade como um todo precisa ser «desescolarizada». (p.17)

Ivan Illich iniciou seu livro de maneira primorosa. Que este autor que vos escreve tenha conseguido, mutatis mutandis, algo parecido em sua estréia neste blog.


Referências:

ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1985.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Superestrutura

Rapaz de classe média alta, que dois anos antes sonhava – sonhava! – com baladas no exterior e roupa de marca, e que decide fazer Geografia e pega por conta própria resumos de Marx; que passa a nutrir sonhos de luta armada - sim, pode rir. Esse jovem traz uma bagagem que ele próprio odiaria conhecer.

Vou te contar algo que ocorreu no fim daquela malfadada primeira graduação. Acho que o melhor termo é “crime de pensamento”, já que não passou disso. E mesmo assim senti vergonha. Não que hoje eu me orgulhe. Também não é nada demais, só que como nunca contei para ninguém, deve ser importante.

Estava no último semestre, o bacharelado parecia próximo. Época de muito tempo livre, muita solidão e muita leitura. Tinha meus amigos, óbvio, mas sentia uma desconexão. Eles não levavam as ideias a sério; não como eu levava. Mesmo os mais engajados me davam a nítida impressão de que não queriam entender o mundo e muito menos transformá-lo; queriam participar dele de uma maneira específica. Reproduziam estruturas básicas das relações humanas que me traziam de volta à parte mais cruel do colegial e a tudo que eu rejeitava no mundo dos meus pais.

Isolei-me, o que me deu uma boa reputação. Eu lia o que os outros fingiam ter lido. Um benefício da Geografia é que o conhecimento – ou a aparência de conhecimento – é um valor. Estava sempre envolvido em discussões, debates, escrevia pra jornais no campus. Tinha naquele campo de ideias algo que realmente me engajava.

Minha percepção básica era a de que havia uma ordem no mundo social, criada pelo homem, mas ao mesmo tempo difícil de ser desvendada. E essa ordem era sórdida - essa fora minha certeza original. Ela perpassava tudo: nossas relações econômicas em primeiro lugar, e nossas relações sociais, culturais, sexuais; até o uso do espaço era deturpado. Era preciso, portanto, botá-la abaixo e criar uma nova. Mas para transformar o mundo alguns teriam que entendê-lo; aí que eu entrava.

A questão da justiça era a que mais me incomodava; pois em todas as relações ela se encontrava violada. Era essa preocupação que justificava minhas longas estadias na sala de leitura da biblioteca fora do horário de aula. Só não me pergunte quanto desse tempo era de estudo de fato e quanto eu gastava pensando na vida ou observando os outros. Criava futuros, longos devaneios, olhava as pessoas em volta. A biblioteca desenvolve uma vida social silenciosa. Tinha meus amigos, meus inimigos; gente com quem eu nunca falaria. Cada um projetava o que queria nos outros, e nos conhecíamos assim. É sobre uma dessas relações imaginárias que eu quero falar. Óbvio que era com uma mulher.

Dava-me um certo orgulho sentir atração por uma negra. Feio, né? Tipo de coisa que não dá pra se gabar, mas que eu adoraria pingar numa conversa. Acontece que ela não era só gostosa. O conjunto transcendia o físico e penetrava o campo dos significados. Black power irretocável, brincos de argola enormes, olhos semiabertos que escondiam uma inteligência cortante, um leve sorrisinho – ou isso era eu que imaginava? O caminhar geométrico, determinado, que atropelaria qualquer homem em seu caminho. Os ângulos retos dos ombros da jaqueta; na parte superior era tudo ângulos retos. E no meio daquela geometria reta, o arredondado dos quadris e do rebolado. Um toque de Brasil naquela beleza african-american. Esse conjunto expressava um conceito: o caminhar inexorável da justiça. O peso do mundo como se não fosse nada. Tão diferente de mim.

Gastei um tempo com a dialética da minha musa secreta; ainda tenho as anotações. Era brincadeira pra passar o tempo, mas não totalmente, sabe? A forma do cabelo, esfera negra perfeita, que devia resultar de um cuidado meticuloso, parecia a projeção natural daquela personalidade, como se todos os detalhes irradiassem necessários de um princípio gerador. O corpo acendia em mim o desejo próprio das relações de poder injustas. Contra isso, e no mesmo corpo, a práxis e a estética de ideias que negavam aquelas relações. A síntese final superava a contradição numa possibilidade de união deste e daquele mundo; gozo e justiça. Deixei uma nota curiosa na margem: a leitura estava mais pra Hegel que pra Marx. Não julgue.

Nossa relação se resumia a isso; vê-la passar diante de mim em direção a uma mesa livre, observá-la enquanto lia e fazia anotações, e finalmente observá-la ir embora. Com certeza ela devia notar o franzino babão a segui-la com a cabeça, mas nunca o fez abertamente. Na minha imaginação ela me mandava um sorrisinho quase imperceptível, como que aprovando a adoração e consciente de que eu jamais teria a coragem de ir além. O rosto era um tiquinho mais cheio do que o ideal. Não importava. Também não importava o fato de ela dormir com frequência na biblioteca, o que em outros me desagradava e que eu tomava como sinal de burrice.

No dia em questão, ela cochilava, cabeça meio de lado apoiada nos braços - não sei se escorria um fiozinho de baba ou se criei isso depois. Bom, enquanto ela dormia, um sujeito se aproximou. Era um cara banal, que eu já vira nos corredores, nunca na biblioteca; desses que gostam de parecer culto. Óculos de aro grosso, barba por fazer; mas também alto, atlético, roupas largas, desenvolto. Chegou do lado dela, encostou a mão no braço, cochichou baixinho em seu ouvido, carinhoso.

Ela abriu os olhos e deu um sorriso preguiçoso, como se ele fosse um namorado trazendo café na cama. O cabelo estava amassado, não era mais a esfera perfeita - o artifício revelado. E foi aí que a percebi de modo diferente. O mesmo rosto, os mesmos traços; me ocorreu que já tinha visto aquele mesmo tipo de cara, muitas vezes. Era comum no Brasil: uma cara que não transmitia inteligência nenhuma; apenas uma alegria sonsa de estar viva e ser jovem. Também não era bonita; por trás da produção havia um rosto sem atrativos. Olhando para aquela menina que me encantara por meses, senti quase uma repulsa, e junto dessa repulsa uma palavra brotou de algum porão esquecido.

"Empregadinha".

Repeti num cochicho: "empregadinha". Aquela que eu admirara por meses, a acadêmica segura de si, minha representante ideal da mulher negra, a personificação apolínea da justiça social; empregadinha.

O sistema de defesa disparou. Cortei o pensamento. Quis me distanciar dele. Fora só algum refluxo de tempos anteriores; um coágulo da experiência da minha classe. Uma bolha de gás, de alguma matéria em decomposição no solo oceânico, que chegava à superfície tendo viajado milhares de quilômetros. Era também prova de que eu tinha muito a progredir. Pega bem dizer-se racista ou sexista, sem bem sê-lo, mostrando que luta para melhorar - eu era ingênuo, mas esse tanto eu já sabia. O que eu não sabia é que mesmo o discurso mais sincero pode mentir.

O que mais me estranha hoje em dia é o quanto aquele “empregadinha” me abalou. Passei a tarde indignado comigo mesmo. Só me acalmei quando concluí que a verbalização fora o eflúvio final de uma impressão que já escoava para o esgoto, e era portanto uma vitória. A adoração incondicional estava intacta. Ou melhor, até mais forte. No fim daquele mesmo dia meus olhos acompanharam espontaneamente o andar daquela deusa quando ela foi embora: aquele rosto determinado, aquela beleza superior, aquela bunda.

Daí uns dias depois ela sumiu, e deve ter ficado quase um mês fora. Uma semana antes das provas - eu continuava na velha rotina, sem já saber para quê -, reapareceu. Minha alegria foi imediata, talvez eu tenha até sorrido, e, enquanto eu acompanhava a trajetória, me veio naturalmente e com um dose de ironia: "a empregadinha voltou". Dessa vez já não me importei.

Hoje eu acredito numa mecânica newtoniana da mente. Cada pensamento dispara outro com igual intensidade e direção contrária. Cada elogio faz pensar numa crítica. Cada ato de devoção exige um sacrilégio. Ou será que o disfarça? Veja, os povos mais religiosos inventam as piores blasfêmias. O homofóbico exagerado é homossexual enrustido. A mesma mulher percebida de duas maneiras; deusa e empregadinha. Quem mudou aquele dia fui eu. Mudei? A espuma branca nada é a água escura do mar.

Ideias não importam. Ironicamente, nisso eu já acreditava, ainda que por outros motivos. Ideias decorriam da posição econômica e aquela coisa toda; exceto para nós, os intelectuais. Só que a irrelevância das ideias valia sobretudo para nós. Poderia ser que as melhores intenções produzissem o inverso do que almejavam? Ou ainda, e se estiverem sempre a serviço de outras, as piores?

Mais de um ano depois, no outro curso - quando entrei nas nossas amadas engrenagens - fiquei sabendo o nome dela por um ex-colega e joguei no Google. Eu jamais me dera ao trabalho de descobrir o nome... Joguei no Google e não deu nada além do mínimo: chamadas de vestibulares antigos, lista de iniciação científica. Desde então, quando a curiosidade bate, procuro de novo. Tem o currículo do Lattes, comunicados de concurso. Era da Letras, doutoranda em literatura feminista. Mais clichê impossível. Seu grande feito foi ter passado em concurso de uma federal no interior, e isso já faz tempo.

Será que abandonou o tipo? Nunca fez nada de relevante; nenhum livro. Teve um blog e logo o abandonou. Banalíssimo, alguma coisa sobre aborto, uns poemas; de doer, sabe? Anos depois do último post eu ainda o acessava esporadicamente. Nem sei se continua professora – talvez tenha desistido. Espero que esteja num trabalho que a realize. Aquela menina – assim como eu – não estava no lugar dela e por isso não deu em nada.

Nunca falei com ela; primeiro por falta de coragem; depois por desinteresse. Agora é tarde demais, sem falar que nenhuma pessoa real possível satisfará a necessidade de significado que ela, fictícia, me satisfaz. Quem esteve ali na minha frente todos aqueles dias? Uma feminista que queria acabar com a opressão patriarcal e com o racismo? Uma acadêmica que lutava e vencia num sistema que, apesar de tudo, podia ser usados para uma vida dedicada ao saber? Uma mulata baixinha presa nas engrenagens do ensino superior, capitalizando uma beleza efêmera e sem saber para onde ir?

Só tenho a certeza de que, onde estava, não estava bem. Prefiro, por isso, imaginá-la plena de vida, radiante, em algum mundo paralelo. Uma vida de desafios, aventuras, com a alegria física que ela evidentemente precisava. Imagino-a saudável, sob o sol a pino, de lenço na cabeça, em êxtase faxinando algum assoalho. Pagode tocando no radinho. Ei, não me censure - com você eu posso falar o que der na telha. E se a gente não puder rir disso: dela, de mim e de todo mundo que jura que leva alguma coisa a sério, o que estamos fazendo aqui?

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O extremo fundamentalismo dos irresponsáveis


Por um lado, as mulheres com um refinado senso de progresso consideram a prática abortiva uma mera questão de escolha. Nesse caso, o aborto deve ser liberado, pois "corpo" caracteriza-se simplesmente como propriedade da mulher: nem o embrião e nem ninguém têm autoridade sobre a propriedade alheia. “Meu útero não é de ninguém!”. Como se fosse a coisa mais óbvia do mundo “mulher” e “corpo” serem concebidos como duas entidades ontologicamente distintas cuja apropriação se dá por meio de um decreto. Como se fosse mais óbvio ainda o embrião ser uma parte do corpo da mulher, ao invés de caracterizar-se como uma entidade ontologicamente distinta.

Por outro lado, presume-se que o estatuto biológico do embrião coincide, in toto, com o estatuto de sua humanidade desde o momento da concepção: o embrião é um ser vivo e humano desde o momento da concepção. Afinal, por que não seria? Ora, se não somos uma pessoa desde o momento da concepção até a derradeira hora da morte, então não há o que nos faça uma pessoa. Ninguém exerce essa autoridade sobre nós: “É humano quando me convém”.

A dignidade não é um título concedido por uma autoridade externa, por um pacto ou um ato voluntário declarando: "isto é pessoa, isto não é"; a dignidade está lá, desde sempre. Ou não estará, para sempre. A nenhum homem foi dado o direito de decidir quem tem ou não essa propriedade essencial que nos torna humanos. A pessoa humana – este ser particular cujo nome é João, Maria, José, Ana etc – é ser cujo valor coincide com o fato: para o homem, o fato de ser já é um valor. Superamos a linha da animalidade do primeiro instante ao último. O animal no homem é uma ilusão criada por aquele insuportável excesso de certeza. Deixemos de lado a questão.

A quaestio disputata sobre o aborto não implica exatamente quando a vida começa – todos sabemos quando a vida de uma pessoa começa e é preciso de muita má-fé para pensar o contrário –, mas se a proprietária do útero tem o direito de interromper a gestação quando bem entender.

Devido à fragilidade de sua natureza, o embrião necessita habitar o corpo de uma mulher para viver. É uma espécie de “inquilino”, embora não tenha escolhido “morar” naquele útero. Caso venha a ser um inquilino indesejável, a mulher teria o direito em despejá-lo – garantido pelo direito de liberdade e de propriedade privada, enquanto o direito à vida do embrião é mero detalhe.
   
Como o embrião foi parar em um útero? Ele ocupa um lugar que não lhe pertence e está ali por uma espécie de "favor". A gestante resolve despejá-lo e isso tem um preço elevado: custa a vida do pequeno (tão amontoado de células quanto qualquer um de nós). Assim, a questão é ainda mais profunda: o embrião não escolheu habitar aquele útero, não foi um contrato voluntário entre as partes, ocupa aquele lugar por acaso (cá entra nós: escolhas irresponsáveis).

No caso de a gestante ter engravidado por “acaso”, ela e seu parceiro são os responsáveis e nada mais razoável do que arcarem com as consequências indesejáveis. Com exceção dos inocentes, todos nós sabemos da impossibilidade de uma mulher ficar grávida do “vento”, como dizia minha avó. E a cegonha já se aposentou do imaginário popular faz tempo. Sabe-se das escolhas profundas que precedem uma gestação e, por isso, deveriam preceder o ato sexual. 

Planejamento familiar não significa instrumentalização do sexo, mas a sua humanização. Nesse sentido, o ato sexual diz respeito à moralidade (capacidade de amontoados células refletir antes de agir: conhecer os fins e os meios da ação). O prazer pode trazer consequências indesejáveis e é sinal de maturidade saber lidar com elas. Não tem nada de fundamentalismo religioso em desenvolver maturidade sobre a vida sexual. A consciência dos fins é uma característica típica dos amontoados de células pensantes; e estes pequenos seres que representam o extremo da inocência não são lixo – ou mero capricho? – do extremo fundamentalismo dos irresponsáveis.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Dostoiévski e Herzen na Encruzilhada da História

Juro que é a última vez que publico trechos do meu mestrado; é que o momento é realmente propício ao tema. O que vai abaixo são as páginas finais da minha dissertação. O texto não está adaptado e por isso o leitor vá perdoando a monotonia do discurso acadêmico, bem como referências incompreensíveis fora de contexto. Creio, porém, que o fundamental está acessível.

O mais provável é que depois disto eu passe um bom tempo sem falar de Dostoiévski.

Para quem ainda não teve coragem de encarar: leia "O Grande Inquisidor" neste link.


***


(...) É preciso levar em consideração ainda outro aspecto importante do pensamento dos dois autores aqui comparados: sua eficácia enquanto leitores do processo histórico no que diz respeito às ideias e revoluções políticas. O fato de ambos vaticinarem o declínio irreversível da civilização ocidental e seu iminente assalto por instituições (segundo Herzen) ou valores (segundo Dostoiévski) russos já os afasta em igual medida do quadro verídico desenhado pela história do século passado até o momento presente. Ainda assim, em suas previsões imprecisas – e delirantes, em certos pontos –, cada qual teve sua margem de erro e acerto. Mais do que checar o “dom de profecia” de ambos, cotejar suas expectativas com a realidade (na medida em que a ciência histórica tem sido eficaz em descrevê-la) pode oferecer-nos algumas importantes lições.

            Dostoiévski, no Diário de um escritor, quase trinta anos após Herzen profetizar o cataclismo europeu, pinta um quadro muito semelhante para o futuro da Europa:

A conta final e o acerto da balança podem acontecer muito antes do que as mais delirantes fantasias predizem. Os sintomas não são bons. A situação política antinatural dos Estados europeus pode servir de estopim para tudo. Uma pequena parte da humanidade não pode possuir todo o resto como escravos, e no entanto foi exclusivamente com este objetivo que, até hoje, todas as instituições cívicas (as quais há muito deixaram de ser cristãs e são hoje inteiramente pagãs) da Europa foram criadas. Esta antinaturalidade e estas questões políticas “insolúveis” devem infalivelmente levar a uma enorme e derradeira guerra de partição na qual todos estarão envolvidos e a qual estourará neste século, talvez mesmo na próxima década. (...)
            E eis que os proletários saem às ruas. O que vocês acham: eles agora esperarão pacientemente como antes, morrendo de fome? Isto será possível, uma vez que temos o socialismo político, depois da Internacional, dos congressos sociais e da Comuna de Paris? Não, agora as coisas não mais serão como antes: os proletários varrerão a Europa e toda a velha ordem colapsará de uma vez por todas.[1]

            Os fatos previstos por Dostoiévski são essencialmente os mesmos da projeção de Herzen: a situação político-econômica da Europa, insustentável a longo prazo, culminará primeiro em uma grande guerra internacional que desorganizará os Estados europeus; então, em meio à balbúrdia geral, guerras domésticas eclodirão, com os proletários das grandes potências industriais tomando as ruas e concluindo a destruição do “velho mundo”.

            Nem Herzen nem Dostoiévski viam inteiramente com bons olhos este panorama. A diferença é que Dostoiévski opunha-se a ele em princípio, desde suas premissas teóricas até suas consequências práticas, ao passo em que a discordância de Herzen diz mais respeito à metodologia de uma revolução “descontrolada” do que ao fato em si de se destruir a velha ordem por meio de um levante popular. Isto é, a onda proletária desfigurando a face do continente europeu era quase a revolução idealizada por Herzen; para Dostoiévski, era em todos os sentidos uma ameaça nefasta e um pesadelo.

            E é sobre a perspectiva desta ameaça que Dostoiévski constrói seu edifício utópico. O papel da Rússia enquanto retificadora dos erros do Ocidente viria à tona, segundo o romancista, na esteira da desordem revolucionária europeia:

As ondas [da revolução proletária] quebrarão inofensivas apenas contra as nossas margens [russas], pois apenas então, claramente e para todos verem, virá a total revelação de quão distinto é o nosso organismo do organismo europeu. Então, mesmo vocês, pensadores doutrinários, talvez recobrem os sentidos e comecem a buscar em nossa pátria “os princípios do Povo”, dos quais vocês até agora apenas riem. E ainda assim, hoje, os senhores apontam para a Europa e nos instam a transplantar para cá aquelas mesmas instituições as quais entrarão em colapso por lá amanhã. (...) “Eles há muito resolveram seus problemas”, o senhor diz – e isto após vinte constituições em menos de um século e quase dez revoluções! Oh, talvez apenas então, livres da Europa por um momento, nós nos aproximaremos de nossos próprios ideais sociais, aqueles inequivocamente derivados de Cristo e do aprimoramento pessoal, Sr. Gradóvski.[2]

            Entre as previsões de Herzen e Dostoiévski há, portanto, uma semelhança particularmente significativa: ambos visualizavam a revolução proletária acontecendo na Europa. Dostoiévski via na Rússia o “antídoto” à onda revolucionária; Herzen limitava-se a inspirar-se em sua terra natal para propor uma revolução socialista mais limpa e gradualista, com os avanços tecnológicos ocidentais aliados ao modelo social da comuna camponesa russa. Ambos consideravam que a difusão das ideias socialistas, originalmente europeias, já estava adiantada na Rússia, porém não lhes ocorria a possibilidade de as condições imediatas de sua terra natal serem mais propícias à revolução do que no Ocidente.

            Enfim, eis que a grande guerra internacional de fato eclodiu, e os anos de 1914-18 realmente mudaram o mapa da Europa, desfigurando nacionalidades e fronteiras; e, o que é mais importante, a guerra criou, com efeito, a ocasião para a revolução socialista – na Rússia. Neste ponto o século XX foi uma resposta um tanto cruel e irônica às esperanças eslavófilas de Dostoiévski. O paradigma do poema Vlas, de Niekrássov, do pecador que na hora H se converte e passa a viver para expiar suas faltas, não descrevia, afinal, o eterno movimento da alma russa, como o romancista queria crer. O miserável e religioso povo russo não conteve a revolução; pelo contrário, serviu-lhe de substrato material. À altura da guerra civil, ambos os exércitos branco e vermelho eram compostos por camponeses[3].

            Se não deixa de ser legítimo, em certo sentido, dizer que a revolução socialista na Rússia expressou a vontade de seu povo, da mesma forma, diante dos relatos históricos sobre os variados destinos de famílias e grupos camponeses durante os anos revolucionários, é difícil atribuir a uma entidade abstrata chamada “povo” uma única vontade e um único destino. Ao que tudo indica, o principal traço comum entre as classes populares russas na virada do século XIX para o XX não era nem seu Cristianismo “puro”, nem seu tino político naturalmente aguçado, mas o alheamento com relação aos afazeres da nobreza e da intelligentsia. Assim, deflagrada a revolução, houve grupos populares que voluntariamente a abraçaram, como houve os que a rejeitaram, mas a grande maioria quedou indefesa e atônita sob as engrenagens do momento crítico.

            Olhando retrospectivamente, Dostoiévski e os pótchvienniki estavam no caminho certo ao aliar a exaltação dos valores populares tradicionais à necessidade da educação do narod; afinal, são raríssimos os casos de indivíduos que conseguem aprimorar-se – em sentido dostoievskiano – apenas com base em intuições morais rudimentares. Já vimos que Dostoiévski gostava de idealizar alguns camponeses que tomava por exemplares da “pureza interior” da alma russa, como o mujique Marei e a babá de Púchkin; para ele, estes indivíduos tinham pouca consciência de seu próprio valor e do valor daquilo que representavam – o sentimento fraterno de inspiração cristã –, mas somente o fato de viverem colocando em prática suas intuições rudimentares já bastaria para se construir, na Rússia, uma muralha contra os “erros do Ocidente”.

            Nada poderia ser mais falso. Não se contém uma revolução tendo como arma apenas as verdades inconscientes de um povo. Nesse sentido, a argumentação pótchviennik, partindo da noção de autoconsciência como base do conhecimento em geral, era razoável com relação ao problema do campesinato russo ao concluir pela urgência de sua educação. Com efeito, na hora H da história russa, o narod achou-se incapaz de avaliar seu próprio lugar histórico – e acabou servindo largamente como massa de manobra a causas cujo sentido último lhe escapava.

O Pótchviennitchestvo, porém, também continha algumas das ideias que, ao longo do desenvolvimento intelectual de Dostoiévski, degenerariam no aspecto mais equivocado de seu pensamento – seu nacionalismo xenófobo. A ênfase pótchviennik na importância da autoconsciência era análoga e complementar à importância dada à imersão do indivíduo em seu universo nacional. Até certo ponto, isto é muito razoável: um homem é feito também à imagem de suas circunstâncias. Mas Dostoiévski parece ter levado este preceito longe demais e, em seu processo de autoconhecimento por meio da incorporação da nacionalidade, fundiu-se a sua terra natal, cegando-se a todo o resto e bloqueando, assim, a própria possibilidade de compreender algo além de suas projeções da Rússia sobre os objetos que analisava.

Deste modo, seu talento para perceber movimentos psicossociais antes mesmo de estes tomarem formas concretas, tendo como base apenas a psicologia humana, acabou frustrado pelas armadilhas de sua própria psicologia. Mais do que nenhum outro autor, Dostoiévski entendeu a natureza da revolução russa, e se chamá-lo “profeta” já se tornou um cliché, mais difícil é encontrar termo mais apropriado ao seu papel enquanto pensador de seu tempo. E, no entanto, era ele mesmo um produto da mentalidade revolucionária russa.

O mencionado talento perceptivo de Dostoiévski poderia tê-lo feito um antípoda de Herzen, sendo este o mais perfeito expoente da desfiguração de um espírito nobre à força de sua exposição a estímulos contraditórios, à crença de que entre “bem” e “mal” há uma diferença meramente opinativa e de que os desejos humanos existem exclusivamente para obter a saciedade. Dostoiévski estava anos luz à frente de Herzen no que diz respeito à compreensão da natureza humana e de sua relação com tudo o que existe. Mas tem Dostoiévski precisamente a mesma altura que seu oponente revolucionário quando veste a carapuça de ideólogo. Ao fim e ao cabo, tendo chegado muito perto de verdadeiramente prever a essência da história política do século XX, sua ideologia eslavófila o obrigou a enxergar apenas aquilo que todos os socialistas já afirmavam: que a urbanização industrial e a política externa colonialista levariam a Europa ao caos, com guerras impulsionando os proletários às ruas, liquidando o Terceiro Estado e assim por diante. Dostoiévski precisava deste quadro para construir sua utopia eslavófila, e não fez questão de enxergar nada mais além dele. Se tivesse olhado a Rússia com um pouco mais de isenção, ele, que com tanta precisão descreveu os efeitos da cosmovisão utilitário-materialista na alma de seus conterrâneos, teria possivelmente atentado à iminência da eclosão revolucionária em seu país.

Quanto a Herzen, ele foi, nas palavras do próprio Dostoiévski, um gentilhomme russe et citoyen du monde. Seu sentimento pátrio era demasiado imiscuído às demandas de seu cosmopolitismo para que lhe coubesse enxergar o real papel da Rússia na história posterior do Ocidente. Ainda assim, suas expectativas políticas acabaram revelando-se mais próximas do que veio de fato a acontecer do que o pan-eslavismo de Dostoiévski. Isto é verdadeiro, ao menos, quanto ao século XX. Já na história mais recente da Rússia, temos presenciado o ressurgimento de ideologias muito próximas à professada pelo autor do Diário de um escritor. São, porém, as ideias pan-eslavistas de Dostoiévski transformadas pela experiência soviética, dando origem a doutrinas como Nacional-bolchevismo e o Eurasianismo, nas quais a ideia de um império encabeçado pela Rússia, destinado a corrigir os erros do Ocidente, alia-se ao militarismo autoritário tipicamente soviético, recorrendo ao mesmo tempo à religião ortodoxa como fator de identidade e união do povo russo.

Tudo isto nos remete, por fim, a “O Grande Inquisidor”, o verdadeiro coração da obra dostoievskiana. Uma das leituras mais comuns deste capítulo de Os Irmãos Karamázov o interpreta como uma antevisão do socialismo posto em prática – o que de fato ele é. Porém, fazendo uma leitura mais cerrada do texto, vemos que se trata disto e de mais um pouco.

Diz o Grande Inquisidor a Cristo:

Sabes tu que passarão os séculos e a humanidade proclamará através da sua sabedoria e da sua ciência que o crime não existe, logo, também não existe pecado, existem apenas os famintos? ‘Alimenta-os e então cobra virtudes deles!’ – eis o que escreverão na bandeira que levantarão contra ti e com a qual teu templo será destruído. No lugar do teu templo será erigido um novo edifício, será erigida uma nova e terrível torre de Babel, e ainda que esta não se conclua, como a anterior, mesmo assim poderias evitar essa torre e reduzir em mil anos os sofrimentos dos homens, pois é a nós que eles virão depois de sofrerem mil anos com sua torre! Eles nos reencontrarão debaixo da terra, nas catacumbas em que nos esconderemos (porque novamente seremos objeto de perseguição e suplício), nos encontrarão e nos clamarão: ‘Alimentai-nos, pois aqueles que nos prometeram o fogo dos céus não cumpriram a promessa’. E então nós concluiremos a construção de sua torre, pois a concluirá aquele que os alimentar, e só nós os alimentaremos em teu nome e mentiremos que é em teu nome que o fazemos.

            Este trecho e outros deixam bastante claro que o futuro referido pelo Grande Inquisidor já se passa em um momento posterior à revolução socialista. Segundo a profecia dostoievskiana, haverá, primeiro, o socialismo (“‘Alimenta-os e então cobra virtudes deles!’ – eis o que escreverão na bandeira que levantarão contra ti e com a qual teu templo será destruído.”); porém, esta “Torre de Babel” não será concluída e sucumbirá após trazer muito sofrimento à humanidade. Neste momento de desespero, pois “quem prometeu o fogo dos céus não cumpriu a promessa”, é que o Grande Inquisidor e os seus virão “concluir a construção da torre”, e o farão em nome de Cristo, sob a hipócrita aparência de uma igreja cristã.

Assim, o mais correto não é dizer que sob uma aparente crítica ao catolicismo Dostoiévski descreve o socialismo; esta leitura não é equivocada, porém não é a mais precisa. O que o romancista faz é lançar mão do livro bíblico do Apocalipse, segundo o qual o advento do Anticristo instaurará uma falsa igreja sobre a terra, para construir uma parábola carregada de significado, na qual o Grande Inquisidor não exatamente encarna – como quer uma leitura mais plana do texto – Stálin ou um ditador declaradamente socialista, mas, mais precisamente, o antipapa que se apossará da Igreja no fim dos tempos, após o fracasso socialista e após expulsar de Roma o verdadeiro pontífice, segundo previsto na escatologia cristã. Ou seja, é impreciso dizer que em “O Grande Inquisidor” Dostoiévski previu a realidade soviética, pois a profecia aí implícita, se alguma há, diz respeito a um futuro ainda por vir.

Vale enfatizar que o mencionado antipapa seria um continuador do socialismo disfarçado de líder cristão, e por isso é correto ler “O Grande Inquisidor” como uma parábola antissocialista. Contudo, se bem ler literatura é uma tentativa contínua de reinterpretação textual à luz de novos dados da realidade, não podemos deixar escapar esta nuance da obra máxima de Dostoiévski, tão significativa face ao rumo que vem tomando a história mais recente do confronto entre o Ocidente e a Rússia. Dostoiévski não tinha dúvidas de que o chefe impostor da Igreja viria de dentro da própria Roma; talvez haja aí um erro análogo ao que o fez negligenciar a iminência da revolução socialista em seu próprio país.





[1] A Writer’s Diary, vol. 2, pp. 1320-1321. “Four Lectures On Various Topics”.
[2] Idem, p. 1321.
[3] “Dada a composição social da Rússia naquele momento, não é de surpreender que a maior parte dos soldados em ambos os lados fossem camponeses. Enquanto a maioria dos trabalhadores das fábricas apoiavam os Bolcheviques, os camponeses tinham uma atitude profundamente ambígua com relação à guerra civil. Aqueles que podiam ficar de fora, ficavam. (...) O campesinato às vezes apoiava o Exército Vermelho, às vezes o Branco, mas a crueldade em ambos os lados rapidamente os alienava.” In: BROWN, Archie. The Rise and Fall of Communism. Vintage Books: 2010, p. 53.