quinta-feira, 3 de abril de 2014

O extremo fundamentalismo dos irresponsáveis


Por um lado, as mulheres com um refinado senso de progresso consideram a prática abortiva uma mera questão de escolha. Nesse caso, o aborto deve ser liberado, pois "corpo" caracteriza-se simplesmente como propriedade da mulher: nem o embrião e nem ninguém têm autoridade sobre a propriedade alheia. “Meu útero não é de ninguém!”. Como se fosse a coisa mais óbvia do mundo “mulher” e “corpo” serem concebidos como duas entidades ontologicamente distintas cuja apropriação se dá por meio de um decreto. Como se fosse mais óbvio ainda o embrião ser uma parte do corpo da mulher, ao invés de caracterizar-se como uma entidade ontologicamente distinta.

Por outro lado, presume-se que o estatuto biológico do embrião coincide, in toto, com o estatuto de sua humanidade desde o momento da concepção: o embrião é um ser vivo e humano desde o momento da concepção. Afinal, por que não seria? Ora, se não somos uma pessoa desde o momento da concepção até a derradeira hora da morte, então não há o que nos faça uma pessoa. Ninguém exerce essa autoridade sobre nós: “É humano quando me convém”.

A dignidade não é um título concedido por uma autoridade externa, por um pacto ou um ato voluntário declarando: "isto é pessoa, isto não é"; a dignidade está lá, desde sempre. Ou não estará, para sempre. A nenhum homem foi dado o direito de decidir quem tem ou não essa propriedade essencial que nos torna humanos. A pessoa humana – este ser particular cujo nome é João, Maria, José, Ana etc – é ser cujo valor coincide com o fato: para o homem, o fato de ser já é um valor. Superamos a linha da animalidade do primeiro instante ao último. O animal no homem é uma ilusão criada por aquele insuportável excesso de certeza. Deixemos de lado a questão.

A quaestio disputata sobre o aborto não implica exatamente quando a vida começa – todos sabemos quando a vida de uma pessoa começa e é preciso de muita má-fé para pensar o contrário –, mas se a proprietária do útero tem o direito de interromper a gestação quando bem entender.

Devido à fragilidade de sua natureza, o embrião necessita habitar o corpo de uma mulher para viver. É uma espécie de “inquilino”, embora não tenha escolhido “morar” naquele útero. Caso venha a ser um inquilino indesejável, a mulher teria o direito em despejá-lo – garantido pelo direito de liberdade e de propriedade privada, enquanto o direito à vida do embrião é mero detalhe.
   
Como o embrião foi parar em um útero? Ele ocupa um lugar que não lhe pertence e está ali por uma espécie de "favor". A gestante resolve despejá-lo e isso tem um preço elevado: custa a vida do pequeno (tão amontoado de células quanto qualquer um de nós). Assim, a questão é ainda mais profunda: o embrião não escolheu habitar aquele útero, não foi um contrato voluntário entre as partes, ocupa aquele lugar por acaso (cá entra nós: escolhas irresponsáveis).

No caso de a gestante ter engravidado por “acaso”, ela e seu parceiro são os responsáveis e nada mais razoável do que arcarem com as consequências indesejáveis. Com exceção dos inocentes, todos nós sabemos da impossibilidade de uma mulher ficar grávida do “vento”, como dizia minha avó. E a cegonha já se aposentou do imaginário popular faz tempo. Sabe-se das escolhas profundas que precedem uma gestação e, por isso, deveriam preceder o ato sexual. 

Planejamento familiar não significa instrumentalização do sexo, mas a sua humanização. Nesse sentido, o ato sexual diz respeito à moralidade (capacidade de amontoados células refletir antes de agir: conhecer os fins e os meios da ação). O prazer pode trazer consequências indesejáveis e é sinal de maturidade saber lidar com elas. Não tem nada de fundamentalismo religioso em desenvolver maturidade sobre a vida sexual. A consciência dos fins é uma característica típica dos amontoados de células pensantes; e estes pequenos seres que representam o extremo da inocência não são lixo – ou mero capricho? – do extremo fundamentalismo dos irresponsáveis.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Dostoiévski e Herzen na Encruzilhada da História

Juro que é a última vez que publico trechos do meu mestrado; é que o momento é realmente propício ao tema. O que vai abaixo são as páginas finais da minha dissertação. O texto não está adaptado e por isso o leitor vá perdoando a monotonia do discurso acadêmico, bem como referências incompreensíveis fora de contexto. Creio, porém, que o fundamental está acessível.

O mais provável é que depois disto eu passe um bom tempo sem falar de Dostoiévski.

Para quem ainda não teve coragem de encarar: leia "O Grande Inquisidor" neste link.


***


(...) É preciso levar em consideração ainda outro aspecto importante do pensamento dos dois autores aqui comparados: sua eficácia enquanto leitores do processo histórico no que diz respeito às ideias e revoluções políticas. O fato de ambos vaticinarem o declínio irreversível da civilização ocidental e seu iminente assalto por instituições (segundo Herzen) ou valores (segundo Dostoiévski) russos já os afasta em igual medida do quadro verídico desenhado pela história do século passado até o momento presente. Ainda assim, em suas previsões imprecisas – e delirantes, em certos pontos –, cada qual teve sua margem de erro e acerto. Mais do que checar o “dom de profecia” de ambos, cotejar suas expectativas com a realidade (na medida em que a ciência histórica tem sido eficaz em descrevê-la) pode oferecer-nos algumas importantes lições.

            Dostoiévski, no Diário de um escritor, quase trinta anos após Herzen profetizar o cataclismo europeu, pinta um quadro muito semelhante para o futuro da Europa:

A conta final e o acerto da balança podem acontecer muito antes do que as mais delirantes fantasias predizem. Os sintomas não são bons. A situação política antinatural dos Estados europeus pode servir de estopim para tudo. Uma pequena parte da humanidade não pode possuir todo o resto como escravos, e no entanto foi exclusivamente com este objetivo que, até hoje, todas as instituições cívicas (as quais há muito deixaram de ser cristãs e são hoje inteiramente pagãs) da Europa foram criadas. Esta antinaturalidade e estas questões políticas “insolúveis” devem infalivelmente levar a uma enorme e derradeira guerra de partição na qual todos estarão envolvidos e a qual estourará neste século, talvez mesmo na próxima década. (...)
            E eis que os proletários saem às ruas. O que vocês acham: eles agora esperarão pacientemente como antes, morrendo de fome? Isto será possível, uma vez que temos o socialismo político, depois da Internacional, dos congressos sociais e da Comuna de Paris? Não, agora as coisas não mais serão como antes: os proletários varrerão a Europa e toda a velha ordem colapsará de uma vez por todas.[1]

            Os fatos previstos por Dostoiévski são essencialmente os mesmos da projeção de Herzen: a situação político-econômica da Europa, insustentável a longo prazo, culminará primeiro em uma grande guerra internacional que desorganizará os Estados europeus; então, em meio à balbúrdia geral, guerras domésticas eclodirão, com os proletários das grandes potências industriais tomando as ruas e concluindo a destruição do “velho mundo”.

            Nem Herzen nem Dostoiévski viam inteiramente com bons olhos este panorama. A diferença é que Dostoiévski opunha-se a ele em princípio, desde suas premissas teóricas até suas consequências práticas, ao passo em que a discordância de Herzen diz mais respeito à metodologia de uma revolução “descontrolada” do que ao fato em si de se destruir a velha ordem por meio de um levante popular. Isto é, a onda proletária desfigurando a face do continente europeu era quase a revolução idealizada por Herzen; para Dostoiévski, era em todos os sentidos uma ameaça nefasta e um pesadelo.

            E é sobre a perspectiva desta ameaça que Dostoiévski constrói seu edifício utópico. O papel da Rússia enquanto retificadora dos erros do Ocidente viria à tona, segundo o romancista, na esteira da desordem revolucionária europeia:

As ondas [da revolução proletária] quebrarão inofensivas apenas contra as nossas margens [russas], pois apenas então, claramente e para todos verem, virá a total revelação de quão distinto é o nosso organismo do organismo europeu. Então, mesmo vocês, pensadores doutrinários, talvez recobrem os sentidos e comecem a buscar em nossa pátria “os princípios do Povo”, dos quais vocês até agora apenas riem. E ainda assim, hoje, os senhores apontam para a Europa e nos instam a transplantar para cá aquelas mesmas instituições as quais entrarão em colapso por lá amanhã. (...) “Eles há muito resolveram seus problemas”, o senhor diz – e isto após vinte constituições em menos de um século e quase dez revoluções! Oh, talvez apenas então, livres da Europa por um momento, nós nos aproximaremos de nossos próprios ideais sociais, aqueles inequivocamente derivados de Cristo e do aprimoramento pessoal, Sr. Gradóvski.[2]

            Entre as previsões de Herzen e Dostoiévski há, portanto, uma semelhança particularmente significativa: ambos visualizavam a revolução proletária acontecendo na Europa. Dostoiévski via na Rússia o “antídoto” à onda revolucionária; Herzen limitava-se a inspirar-se em sua terra natal para propor uma revolução socialista mais limpa e gradualista, com os avanços tecnológicos ocidentais aliados ao modelo social da comuna camponesa russa. Ambos consideravam que a difusão das ideias socialistas, originalmente europeias, já estava adiantada na Rússia, porém não lhes ocorria a possibilidade de as condições imediatas de sua terra natal serem mais propícias à revolução do que no Ocidente.

            Enfim, eis que a grande guerra internacional de fato eclodiu, e os anos de 1914-18 realmente mudaram o mapa da Europa, desfigurando nacionalidades e fronteiras; e, o que é mais importante, a guerra criou, com efeito, a ocasião para a revolução socialista – na Rússia. Neste ponto o século XX foi uma resposta um tanto cruel e irônica às esperanças eslavófilas de Dostoiévski. O paradigma do poema Vlas, de Niekrássov, do pecador que na hora H se converte e passa a viver para expiar suas faltas, não descrevia, afinal, o eterno movimento da alma russa, como o romancista queria crer. O miserável e religioso povo russo não conteve a revolução; pelo contrário, serviu-lhe de substrato material. À altura da guerra civil, ambos os exércitos branco e vermelho eram compostos por camponeses[3].

            Se não deixa de ser legítimo, em certo sentido, dizer que a revolução socialista na Rússia expressou a vontade de seu povo, da mesma forma, diante dos relatos históricos sobre os variados destinos de famílias e grupos camponeses durante os anos revolucionários, é difícil atribuir a uma entidade abstrata chamada “povo” uma única vontade e um único destino. Ao que tudo indica, o principal traço comum entre as classes populares russas na virada do século XIX para o XX não era nem seu Cristianismo “puro”, nem seu tino político naturalmente aguçado, mas o alheamento com relação aos afazeres da nobreza e da intelligentsia. Assim, deflagrada a revolução, houve grupos populares que voluntariamente a abraçaram, como houve os que a rejeitaram, mas a grande maioria quedou indefesa e atônita sob as engrenagens do momento crítico.

            Olhando retrospectivamente, Dostoiévski e os pótchvienniki estavam no caminho certo ao aliar a exaltação dos valores populares tradicionais à necessidade da educação do narod; afinal, são raríssimos os casos de indivíduos que conseguem aprimorar-se – em sentido dostoievskiano – apenas com base em intuições morais rudimentares. Já vimos que Dostoiévski gostava de idealizar alguns camponeses que tomava por exemplares da “pureza interior” da alma russa, como o mujique Marei e a babá de Púchkin; para ele, estes indivíduos tinham pouca consciência de seu próprio valor e do valor daquilo que representavam – o sentimento fraterno de inspiração cristã –, mas somente o fato de viverem colocando em prática suas intuições rudimentares já bastaria para se construir, na Rússia, uma muralha contra os “erros do Ocidente”.

            Nada poderia ser mais falso. Não se contém uma revolução tendo como arma apenas as verdades inconscientes de um povo. Nesse sentido, a argumentação pótchviennik, partindo da noção de autoconsciência como base do conhecimento em geral, era razoável com relação ao problema do campesinato russo ao concluir pela urgência de sua educação. Com efeito, na hora H da história russa, o narod achou-se incapaz de avaliar seu próprio lugar histórico – e acabou servindo largamente como massa de manobra a causas cujo sentido último lhe escapava.

O Pótchviennitchestvo, porém, também continha algumas das ideias que, ao longo do desenvolvimento intelectual de Dostoiévski, degenerariam no aspecto mais equivocado de seu pensamento – seu nacionalismo xenófobo. A ênfase pótchviennik na importância da autoconsciência era análoga e complementar à importância dada à imersão do indivíduo em seu universo nacional. Até certo ponto, isto é muito razoável: um homem é feito também à imagem de suas circunstâncias. Mas Dostoiévski parece ter levado este preceito longe demais e, em seu processo de autoconhecimento por meio da incorporação da nacionalidade, fundiu-se a sua terra natal, cegando-se a todo o resto e bloqueando, assim, a própria possibilidade de compreender algo além de suas projeções da Rússia sobre os objetos que analisava.

Deste modo, seu talento para perceber movimentos psicossociais antes mesmo de estes tomarem formas concretas, tendo como base apenas a psicologia humana, acabou frustrado pelas armadilhas de sua própria psicologia. Mais do que nenhum outro autor, Dostoiévski entendeu a natureza da revolução russa, e se chamá-lo “profeta” já se tornou um cliché, mais difícil é encontrar termo mais apropriado ao seu papel enquanto pensador de seu tempo. E, no entanto, era ele mesmo um produto da mentalidade revolucionária russa.

O mencionado talento perceptivo de Dostoiévski poderia tê-lo feito um antípoda de Herzen, sendo este o mais perfeito expoente da desfiguração de um espírito nobre à força de sua exposição a estímulos contraditórios, à crença de que entre “bem” e “mal” há uma diferença meramente opinativa e de que os desejos humanos existem exclusivamente para obter a saciedade. Dostoiévski estava anos luz à frente de Herzen no que diz respeito à compreensão da natureza humana e de sua relação com tudo o que existe. Mas tem Dostoiévski precisamente a mesma altura que seu oponente revolucionário quando veste a carapuça de ideólogo. Ao fim e ao cabo, tendo chegado muito perto de verdadeiramente prever a essência da história política do século XX, sua ideologia eslavófila o obrigou a enxergar apenas aquilo que todos os socialistas já afirmavam: que a urbanização industrial e a política externa colonialista levariam a Europa ao caos, com guerras impulsionando os proletários às ruas, liquidando o Terceiro Estado e assim por diante. Dostoiévski precisava deste quadro para construir sua utopia eslavófila, e não fez questão de enxergar nada mais além dele. Se tivesse olhado a Rússia com um pouco mais de isenção, ele, que com tanta precisão descreveu os efeitos da cosmovisão utilitário-materialista na alma de seus conterrâneos, teria possivelmente atentado à iminência da eclosão revolucionária em seu país.

Quanto a Herzen, ele foi, nas palavras do próprio Dostoiévski, um gentilhomme russe et citoyen du monde. Seu sentimento pátrio era demasiado imiscuído às demandas de seu cosmopolitismo para que lhe coubesse enxergar o real papel da Rússia na história posterior do Ocidente. Ainda assim, suas expectativas políticas acabaram revelando-se mais próximas do que veio de fato a acontecer do que o pan-eslavismo de Dostoiévski. Isto é verdadeiro, ao menos, quanto ao século XX. Já na história mais recente da Rússia, temos presenciado o ressurgimento de ideologias muito próximas à professada pelo autor do Diário de um escritor. São, porém, as ideias pan-eslavistas de Dostoiévski transformadas pela experiência soviética, dando origem a doutrinas como Nacional-bolchevismo e o Eurasianismo, nas quais a ideia de um império encabeçado pela Rússia, destinado a corrigir os erros do Ocidente, alia-se ao militarismo autoritário tipicamente soviético, recorrendo ao mesmo tempo à religião ortodoxa como fator de identidade e união do povo russo.

Tudo isto nos remete, por fim, a “O Grande Inquisidor”, o verdadeiro coração da obra dostoievskiana. Uma das leituras mais comuns deste capítulo de Os Irmãos Karamázov o interpreta como uma antevisão do socialismo posto em prática – o que de fato ele é. Porém, fazendo uma leitura mais cerrada do texto, vemos que se trata disto e de mais um pouco.

Diz o Grande Inquisidor a Cristo:

Sabes tu que passarão os séculos e a humanidade proclamará através da sua sabedoria e da sua ciência que o crime não existe, logo, também não existe pecado, existem apenas os famintos? ‘Alimenta-os e então cobra virtudes deles!’ – eis o que escreverão na bandeira que levantarão contra ti e com a qual teu templo será destruído. No lugar do teu templo será erigido um novo edifício, será erigida uma nova e terrível torre de Babel, e ainda que esta não se conclua, como a anterior, mesmo assim poderias evitar essa torre e reduzir em mil anos os sofrimentos dos homens, pois é a nós que eles virão depois de sofrerem mil anos com sua torre! Eles nos reencontrarão debaixo da terra, nas catacumbas em que nos esconderemos (porque novamente seremos objeto de perseguição e suplício), nos encontrarão e nos clamarão: ‘Alimentai-nos, pois aqueles que nos prometeram o fogo dos céus não cumpriram a promessa’. E então nós concluiremos a construção de sua torre, pois a concluirá aquele que os alimentar, e só nós os alimentaremos em teu nome e mentiremos que é em teu nome que o fazemos.

            Este trecho e outros deixam bastante claro que o futuro referido pelo Grande Inquisidor já se passa em um momento posterior à revolução socialista. Segundo a profecia dostoievskiana, haverá, primeiro, o socialismo (“‘Alimenta-os e então cobra virtudes deles!’ – eis o que escreverão na bandeira que levantarão contra ti e com a qual teu templo será destruído.”); porém, esta “Torre de Babel” não será concluída e sucumbirá após trazer muito sofrimento à humanidade. Neste momento de desespero, pois “quem prometeu o fogo dos céus não cumpriu a promessa”, é que o Grande Inquisidor e os seus virão “concluir a construção da torre”, e o farão em nome de Cristo, sob a hipócrita aparência de uma igreja cristã.

Assim, o mais correto não é dizer que sob uma aparente crítica ao catolicismo Dostoiévski descreve o socialismo; esta leitura não é equivocada, porém não é a mais precisa. O que o romancista faz é lançar mão do livro bíblico do Apocalipse, segundo o qual o advento do Anticristo instaurará uma falsa igreja sobre a terra, para construir uma parábola carregada de significado, na qual o Grande Inquisidor não exatamente encarna – como quer uma leitura mais plana do texto – Stálin ou um ditador declaradamente socialista, mas, mais precisamente, o antipapa que se apossará da Igreja no fim dos tempos, após o fracasso socialista e após expulsar de Roma o verdadeiro pontífice, segundo previsto na escatologia cristã. Ou seja, é impreciso dizer que em “O Grande Inquisidor” Dostoiévski previu a realidade soviética, pois a profecia aí implícita, se alguma há, diz respeito a um futuro ainda por vir.

Vale enfatizar que o mencionado antipapa seria um continuador do socialismo disfarçado de líder cristão, e por isso é correto ler “O Grande Inquisidor” como uma parábola antissocialista. Contudo, se bem ler literatura é uma tentativa contínua de reinterpretação textual à luz de novos dados da realidade, não podemos deixar escapar esta nuance da obra máxima de Dostoiévski, tão significativa face ao rumo que vem tomando a história mais recente do confronto entre o Ocidente e a Rússia. Dostoiévski não tinha dúvidas de que o chefe impostor da Igreja viria de dentro da própria Roma; talvez haja aí um erro análogo ao que o fez negligenciar a iminência da revolução socialista em seu próprio país.





[1] A Writer’s Diary, vol. 2, pp. 1320-1321. “Four Lectures On Various Topics”.
[2] Idem, p. 1321.
[3] “Dada a composição social da Rússia naquele momento, não é de surpreender que a maior parte dos soldados em ambos os lados fossem camponeses. Enquanto a maioria dos trabalhadores das fábricas apoiavam os Bolcheviques, os camponeses tinham uma atitude profundamente ambígua com relação à guerra civil. Aqueles que podiam ficar de fora, ficavam. (...) O campesinato às vezes apoiava o Exército Vermelho, às vezes o Branco, mas a crueldade em ambos os lados rapidamente os alienava.” In: BROWN, Archie. The Rise and Fall of Communism. Vintage Books: 2010, p. 53.

quinta-feira, 13 de março de 2014

"Esparrama pelo chão", cazzo!


Perdoem-me os leitores por abordar um assunto tão insignificante. Tratarei de batatas — mais especificamente, de batatinhas que nascem e se esparramam (ou não) pelo chão. Tenho ouvido desde o Ensino Médio que, na famosa trovinha, o segundo verso não seria “[se] esparrama pelo chão” — como tradicionalmente se declama —, mas, sim, “espalha rama pelo chão”. Segundo dizem, isso se deve ao fato de as batatas serem tubérculos e, sendo assim, crescerem debaixo da terra. O que se espalharia “pelo chão” seria a ramagem da batata. Confesso que, durante a infância e a adolescência, estive muitas vezes sobre batatas ainda na terra, mas nunca me ocorreu verificar se elas formam algum tipo de rama. Aí está um assunto para biólogos e agrônomos discutirem. Abordarei a questão por outra perspectiva.

Nunca soube qual é a origem do famigerado “espalha rama”. A figura mais proeminente a quem se atribui tal correção da trova é o professor Pasquale Cipro Neto, conhecido do grande público por oferecer dicas de Português em jornais, revistas e programas de televisão. Geralmente, o verso corrigido é apresentado ao lado de expressões populares que, com o passar do tempo, teriam sido “deformadas” na boca do povo. É o caso, por exemplo, de “cuspido e escarrado”, cuja versão original seria “esculpido em [mármore] carrara”, ou ainda “cor de burro quando foge”, que, originalmente, dizia-se “corro de burro quando foge”.

Entretanto, existe uma diferença aqui: enquanto os casos mencionados se referem ao gênero dos provérbios ou dos ditos populares, “Batatinha quando nasce” é uma trova (ou quadrinha) que, como tal, possui uma estrutura definida: estrofe de quatro versos, geralmente em redondilha maior (versos heptassílabos, isto é, de sete sílabas poéticas) e com rimas alternadas (esquema abab ou abcb). Vejamos:

Batatinha quando nasce,
Esparrama pelo chão,
Menininha quando dorme,
Põe a mão no coração.

Cuja escansão fica da seguinte maneira:

Ba/ ta/ ti/ nha/ quan/ do/ nas – 7 sílabas
Es/ par/ ra/ ma/ pe/ lo/ chão – 7 sílabas
Me/ ni/ ni/ nha/ quan/ do/ dor – 7 sílabas
Põe/ a/ mão/ no/ co/ ra/ ção – 7 sílabas

Além desta estranha “coincidência” no número de sílabas poéticas, há outra no que se refere aos acentos dos versos:

Ba/ ta/ ti/ nha/ quan/ do/ nas – as 3ª, 5ª e 7ª sílabas são tônicas
Es/ par/ ra/ ma/ pe/ lo/ chão – as 3ª, 5ª e 7ª sílabas são tônicas
Me/ ni/ ni/ nha/ quan/ do/ dor – as 3ª, 5ª e 7ª sílabas são tônicas
Põe/ a/ mão/ no/ co/ ra/ ção – as 3ª e 7ª sílabas são tônicas e a 5ª, subtônica.

Subtônicas são sílabas que, mesmo não sendo a tônica, possuem um som mais marcante do que as átonas mais tênues, que antecedem ou sucedem imediatamente a tônica. É um artifício muito comum contá-las como tônicas, a não ser no lugar das cesuras.

Escandindo os versos, utilizando o “esparrama pelo chão”, percebemos que existe uma regularidade métrica. O mesmo se dá quando consideramos a versão “se esparrama pelo chão”:

Sees/ par/ ra/ ma/ pe/ lo/ chão

Mais uma vez, encontramos um verso heptassílabo com acentos nas 3ª, 5ª e 7ª sílabas poéticas. Isto ocorre porque a última vogal de se e a primeira de esparrama se fundem numa mesma sílaba poética durante a pronúncia (fenômeno conhecido como crase); dizemos: “sesparrama pelo chão”. Agora vejamos “espalha rama pelo chão”:

Es/ pa/ lha/ ra/ ma/ pe/ lo/ chão

Eis um verso de 8 sílabas poéticas (octossílabo), com acentos nas 2ª, 4ª, 6ª e 8ª, o que foge do esquema métrico da trova, quebrando completamente seu ritmo. A partir disso, é possível deduzir que “[se] esparrama pelo chão” faz parte da versão original e que “espalha rama” é a distorção, a deformação, ao contrário do que se tem dito por aí.

O que houve foi uma “supercorreção”, quando se corrige algo que já estava correto. Provavelmente, alguém deduziu que, como as batatas crescem sob o solo, então o verso só poderia estar errado e tratou de adequá-lo ao sentido que julgou ser o mais correto. Quem quer que o tenha feito, caiu numa cilada boba: ignorou a função poética da linguagem, em que os significantes são mais importantes do que o significado, isto é, em que o como se diz é mais importante do que aquilo o que se quer dizer. Se há realmente alguma impropriedade em dizer que as batatas se espalham pelo chão, isso não tem importância, pois os versos da trova estão obedecendo a critérios sonoros, fônicos, e não botânicos. O ritmo da estrofe tem a primazia sobre a estrofe. Desafio qualquer um a estabelecer uma relação convincente de paralelismo lógico entre batatas nascendo no chão e meninas dormindo com a mão sobre o peito. As duas imagens são relacionadas na trova apenas por critérios que dizem respeito à dimensão rítmica da linguagem verbal.

Para não parecer que estou falando de um caso isolado, vejamos outras trovas de nossa cultura popular:

Se essa rua fosse minha,
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de brilhante
Só p’ro meu amor passar.

Nessa rua tem um bosque,
Que se chama solidão,
Dentro dele mora um anjo
Que roubou meu coração.

Os versos são todos heptassílabos, com acentos nas 1ª, 3ª, 5ª e 7ª sílabas, sendo que, por vezes, a 5ª é subtônica.

Atirei o pau no gato,
Mas o gato não morreu,
Dona Chica admirou-se
Do berro que o gato deu.

Este é um exemplo interessante, pois o esquema métrico é formado por versos heptassílabos com acentos nas 3ª, 5ª e 7ª sílabas. O quarto verso, no entanto, possui os acentos nas 2ª, 5ª e 7ª. Solucionamos essa discrepância cantando “do berrô que o gato deu”, adequando a prosódia ao ritmo da trova.

Ou ainda:

O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada,
O cravo saiu ferido,
A rosa, despedaçada.

Em que:

O/ cra/ vo/ bri/ gou/ co’a/ ro – 7 sílabas poéticas (acento nas 2ª e 5ª sílabas)
De/ bai/ xo/ deu/ ma/ sa/ ca – 7 sílabas poéticas (acento nas 2ª e 4ª sílabas)
O/ cra/ vo/ sa/ iu/ fe/ ri – 7 sílabas poéticas (acento nas 2ª e 5ª sílabas)
Ea/ ro/ sa/ des/ pe/ da/ ça – 7 sílabas poéticas (acento na 2ª, sendo que tanto a 4ª quanto a 5ª sílabas podem ser contabilizadas como subtônicas).

Não há uma regularidade métrica tão estrita quanto nos outros exemplos, mas existe um paralelismo em que, considerando-se no quarto verso a quarta como a subtônica, temos um revezamento de versos heptassílabos com diferentes acentos, acompanhando a alternância das rimas: as rimas são cruzadas (abcb), assim como os versos com acentos nas 2ª e 5ª sílabas (digamos, x) se alternam com aqueles acentuados na 2ª e na 4ª, da seguinte forma: (xyxy), sendo que os versos rimados (b) são ambos y. A alternância de tipos de versos com o mesmo número de sílabas, mas com acentos diferentes, é comum nos sonetos parnasianos brasileiros, nos quais costumavam alternar os decassílabos heroicos (acentos nas 6ª e 10ª sílabas, às vezes na 2ª) com os sáficos (acentos nas 4ª, 8ª e 10ª sílabas poéticas).

Já em

Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar,
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou,
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.

... o esquema métrico é de versos heptassílabos com acentos nas 3ª, 5ª e 7ª sílabas, sendo a 5ª, por vezes, subtônica. A única exceção é o primeiro verso, com seis sílabas, acentuadas as 2ª e 4ª. A regularidade rítmica permite-nos supor que, orginalmente, o verso era “cirandinha, cirandinha”, que se encaixa perfeitamente no esquema do restante da canção, talvez reduzido para “ciranda, cirandinha” para eliminar a repetição desnecessária (uma questão de economia possível de ser observada com alguma regularidade quando estudamos fonética). A hipótese não é tão absurda porque a variação “cirandinha, cirandinha” é bem menos frequente, mas também pode ser ouvida em alguns lugares.

A questão é que, até a década de 1990, não se escutava essa história de “espalha rama”. O ônus da prova cabe a quem afirma que a tradição oral está errada. E como se poderia prová-lo? Simples, indo atrás das transcrições mais antigas da trova e verificando se os documentos registram “esparrama” ou “espalha rama”. Até que isto seja feito, não há real motivo para duvidar da versão que nos foi legada, pois ela se adéqua melhor a outros indícios verificáveis, como a estrutura própria das trovas. Não se trata, como possivelmente ocorre em “Ciranda, cirandinha”, de um verso que se adequava a um esquema métrico pré-estabelecido e que foi “descaracterizado” no uso corrente. Seria o oposto disso: um verso irregular que foi regularizado com o passar do tempo, deixando de ser “espalha rama” para se tornar “esparrama”. Mas a grande pergunta é: por que o verso, em sua origem, seria irregular?

Embora, até onde saibamos, o autor seja anônimo, é óbvio que houve um autor, pois trovas (com sua estrutura específica), ao contrário do que certa superstição populista poderia conceber, não surgem espontaneamente da cultura popular. O povo apropria-se da trova, que passa a fazer parte de seu repertório cultural, e ele (na verdade, indivíduos que o compõem) pode fazer-lhe alterações e distorções, modificando o texto original. O que seria inexplicável seria o fato de a trova ter sido composta inicialmente de maneira irregular, a menos que se tratasse de um provérbio adaptado à forma de uma trova. Tal hipótese é pouco provável, pois os versos não possuem um significado relevante ou definido e aparentam se relacionar única e exclusivamente por conta da sonoridade do conjunto. Quer dizer, se esses versos não compusessem desde o princípio uma trova, fica difícil imaginar o que eles pudessem querer dizer. A estrutura na qual eles estão encaixados parece ser sua razão de existir.

Esta discussão pode parecer uma implicância boba de minha mente neurótica (e talvez seja mesmo!). Entretanto, o que me incomoda é isso ser disseminado pelas escolas de todo o país, desacostumando os alunos à fruição da poesia. Ignora-se a função poética e tenta-se adequar a trova a um uso utilitário da linguagem, de forma que tudo se enquadre num significado corrente, lógico. No processo, perde-se a dimensão lúdica da poesia e deixamos de alimentar a imaginação e a sensibilidade de nossos jovens. Depois não adianta reclamar que os alunos não gostam de poesia, pois estamos lhes ensinando que a linguagem poética não se diferencia daquela de um verbete de enciclopédia. Por que então perder tempo com poesia?

segunda-feira, 10 de março de 2014

A Perseguição aos Melhores

Envy will Merit as its Shade pursue,
But like a Shadow, proves the Substance true;
For envy'd Wit, like Sol Eclips'd, makes known
Th' opposing Body's Grossness, not its own.
(Pope)
Ao ler uma biografia do dramaturgo Corneille ("Corneille le grand"), não deixa de espantar-me que o levante dos medíocres, tão logo um homem faça algo de extraordinário, seja quase uma lei da História. De fato, Corneille viveu tranquilo, e até com honras, enquanto se contentou em mostrar um talento que praticamente se resumia ao bom-gosto. No dia, porém, em que decidiu revelar ao mundo seu verdadeiro potencial, com a extraordinária peça Cid, uma sombra pairou sobre seu nome. O Cardeal Richelieu, antes um afetuoso admirador, pôs em seu encalço a própria Academia Francesa, que redigiu um relatório duríssimo contra Cid, coisa que muito magoou Corneille. O escritor Scudéry, na época um figurão, que já havia sido elogiado publicamente pelo nosso poeta (então ainda um iniciante), atacou-o com tal veemência que até hoje os biógrafos tentam compreender os motivos da agressividade repentina - em vão.

Provavelmente o próprio Corneille acertou na mosca quando, diante de tantos ataques inesperados e críticas comezinhas vindas de tão alta gente, atribuiu tudo aquilo ao imenso sucesso do Cid perante o povo francês. De fato, o sucesso parece converter bons amigos e gente outrora amável numa alcateia intransigente, buscando o menor calcanhar descoberto para abocanhá-lo - não por fome, nem mesmo por esperança de derrubar a vítima definitivamente, mas - no sentido veterinário do termo - por raiva. O caso de Corneille não é uma exceção: antes é a regra mesma. A classe universitária francesa, que rejeitou o trabalho promissor de Augusto Comte porque o autor não possuía diploma ginasial, perdendo assim a chance de laurear-se com um pedacinho da coroa de glórias positivista, não é, nesse aspecto, tão diferente da brasileira - que negou a Jorge Luís Borges o cargo de professor da UnB, simplesmente porque aquele argentino imenso não possuía doutorado.

As muitas tentativas, por parte de pessoas de status e representantes da classe intelectual, de atrapalhar e até eliminar por completo a carreira dos homens de gênio, não são levadas a sério pelos intelectuais que lhes sucedem - tratamo-las como erros menores ou desculpáveis, coisa pequena, ou então uma tolice feita por pessoas particularmente burras ou invejosas. Longe disso: a prática é de tal modo disseminada que pareceria uma tradição rigorosa cujo brilho ofusca mesmo as longas linhagens filosóficas - pode-se dizer que a inveja é a mais antiga e renitente escola de pensamento da Humanidade. E a recusa a registrar esses lamentáveis episódios, compilá-los e reavaliá-los, a recusa a criar essa essencialíssima disciplina chamada "História da Inveja", só se explica ou pela inconsciência entorpecida do pecador reincidente, ou por intenção explícita de enterrar tais dolorosos crimes de modo que, na ausência dos exempla que tornariam claras ao público suas culpas, possam renová-las mais confortavelmente.

Se é verdade que tais pecados se cometeram também na Europa e no resto do mundo, não fica por isso privado o Brasil de alguma peculiaridade. Na França, de fato, um homem pode recear ter sido feito à maneira de Corneille - já que isto significa isolamento, perseguição e miséria por obra dos incansáveis medíocres - mas o Brasil é um dos poucos lugares do mundo em que o temor se estende aos mais comuns dos homens. Basta um escritor saber usar linguagem figurada, um poeta saber metrificar, um filósofo, filosofar, um trabalhador, trabalhar; até o intelectual, tão logo se veja sabendo algumas coisas, surpreender-se-á com um rosnar vindo de todos os lados, e ficará perplexo - como eu fiquei algum tempo atrás - por ter crido, ingenuamente, que era normal saber algumas coisas depois de estudar um pouco. Descobrirá, como descobri, haver um pacto tácito, mantido nas sombras e só acessível mediante os rituais iniciáticos da academia, segundo o qual ninguém pode saber nada que preste, sob pena de ficar sem saber muitas coisas em si mesmas irrelevantes - que lhe garantiriam, porém, a aprovação ou pelo menos a tolerância de seus pares. Ora, nosso intelectual, embora soubesse que os gênios sofriam perseguição, nunca desconfiara que lhe bastaria saber de verdade as coisas simples que todos fingiam saber, nunca cogitara que seria suficiente trabalhar com um pouquinho de dedicação e seriedade, para atrair sobre si o ódio e a intriga gerais.

Contudo, alguns colegas caridosos lhe oferecerão, neste momento, uma segunda chance, uma mão amiga, com a seguinte condição: que ele finja não saber o que sabe, e finja que eles sabem o que não sabem - numa palavra, que ele trate com desmerecido respeito e servil deferência esses mesmos colegas que não cumprem os requisitos básicos da posição que assumiram. O motivo que lhe oferecem, como pobre substituto para o juízo crítico normal, é a amizade que podem devotar-lhe - uma amizade falsa, de ocasião, que na linguagem popular é conhecida como rabo-preso: coça minhas costas, que coçarei as tuas. O drama que não lhe revelam é que, caso assine a aliança, estará imediatamente aderindo ao princípio gerador e regulador do atual estado de coisas. Tão-logo o homem dedicado, ou pior, o gênio, aceite aplaudir e tratar como iguais aqueles que se encastelam indevidamente em postos de autoridade, ele confirmará e revigorará, pela força verdadeira do seu talento e da sua dignidade, a ilusão que sustenta esses farsantes em postos que não merecem nem querem merecer. Por essas chantagens psicológicas, eles forçam os bons a autorizarem publicamente uma conduta que não aceitariam em si mesmos, e perpetuam o esquema que substitui a vocação autêntica e o trabalho duro por um vergonhoso toma-lá-dá-cá, uma troca de sorrisinhos marotos, numa palavra, a vagabundagem intelectual.

Ao perceber esses horrores, todo indivíduo dotado de alguma sensibilidade moral tem obrigação de, rejeitando toda proposta indecente, não apenas fazer o seu trabalho com máxima perfeição, mas também preparar-se, por todos os meios disponíveis, para fazer frente aos usurpadores quando chegar a hora, anotando uma por uma as monstruosidades que presencia, e reunindo a documentação que tornará possível, se não extirpar o mal, contê-lo e reduzi-lo durante algum tempo. E isso só se pode fazer se houver, como contraparte, uma grande tolerância e benevolência para com aqueles que, mesmo sendo ineptos no presente momento, tenham firme intenção de fazer jus aos cargos que ocupam ou pretendem ocupar. Devem concentrar-se as energias naqueles que fazem o mal, não por simples despreparo, mas por má consciência, por decisão de fingir e de abusar da confiança pública. Nesta guerra, os incultos são aliados dos cultos, contanto que sejam todos sinceros, humildes, honestos. Não se trata de simples combate à burrice, pois esta burrice é apenas a vestimenta provisória do mais velho inimigo do homem: o mal ele mesmo, a mentira, a farsa. Devemos, portanto, ter fé na lição de Pope: se não cedermos aos blefes dos malignos, se não consentirmos em prostituir-lhes nossa virtude e nosso engenho, a escuridão da mentira acabará por reforçar o próprio brilho da verdade, e os servos das trevas, como um eclipse, passarão.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Nariz empinado também é filho de Deus



Esnobismo é o sentimento de quem tem um bem restrito a poucos, que o vê sendo invadido por uma classe recém-chegada que o desvirtua e que tenta recolocar o invasor em seu lugar inferior. É patrimônio coletivo da espécie humana. Nobres esnobavam burgueses; judeus, góis; dinheiro antigo, novos ricos; pessoal true, posers; acadêmicos, divulgadores; populares, nerds; e nerds – que recentemente virou motivo de orgulho – esnobam os nerd wannabes.

Há segmentos culturais inteiros dedicados à exclusão: o hipsterismo, por exemplo. Se todo mundo conhecer a banda, a banda não é mais tão legal assim; conhecer e gostar do que é de poucos é parte essencial do que os define. Isso pode não ser lá muito admirável, mas é humano; o homem é um ser hierárquico, quer se sobressair e ser admirado. E para isso é preciso manter os outros em seu lugar.

Não são só os ricos que o fazem. Há o esnobismo da falta de dinheiro (ou da aparência da falta de dinheiro), que esnoba os agentes da gentrificação. O barzinho é descolado até chegarem os playboys. Essa versão indireta, esse esnobismo de segunda ordem, gosta de se pintar como superior, mas é igual a sua versão mais vulgar praticada por socialites e mauricinhos. Talvez seja pior. Uma coisa é o vício ali por inteiro, aberto, direto ao ponto; até inocente. Outra é o vício retorcido, disfarçado, indireto, que tenta dissimular sua real natureza. Quanto mais refinada a mente (e por que negar que meio intelectuais meio de esquerda sejam mais inteligentes que dondocas? Nosso igualitarismo chega a isso?), maior a perversidade de que ela é capaz.

Nossos sentimentos e até nosso corpo incorporam certo esnobismo, certa rejeição pelo que é mais popular. O salgado gorduroso num boteco de favela junto ao córrego não é digno de nossa boca, embora os favelados o adorem; idem para o copo d’água suspeito nas ruas de Nova Deli. Ainda que o cérebro igualitário prevaleça, o intestino não será tão democrático.

A esnobada pode ser ofensiva, quando o alvo é um invasor isolado que não sabe se adequar às normas implícitas da comunidade exclusiva; ou pode ser defensiva, quando toda uma nova classe invade a comunidade, mudando sua configuração. No primeiro caso, o motivo do gracejo é realmente evidenciar a inferioridade do sujeito em algum aspecto: “Pfff, veste camiseta da banda mas só conhece os hits”. No segundo, a esnobada pode nem derivar do desejo de excluir o invasor, e reflete apenas a tristeza perante o desvirtuamento da comunidade ou do item de consumo, agora vulgarizados. Ou vai dizer que você ama o fato de os cinemas e TV a cabo só passarem filme dublado? Pra não falar do que virou o teatro... É o preço da inclusão social e econômica. Podemos gostar dela mas lamentar alguns de seus efeitos, não? Aliás, já repararam que nenhum requeijão presta mais?

Quando a professora Rosa Marina Meyer viu um proletário esculachado no aeroporto, seus instintos esnobes apitaram e fez uma piadinha nas redes sociais. Aquela monstra asquerosa. Seu esnobismo foi do tipo mais inocente, mais puro. O passeio aeroviário, outrora marcado pela finesse e sofisticação, está a metamorfosear-se em ambiente popularesco, com filas quilométricas, barulho, cheiros mil, carne, gordura, pele e pelos à vista; daqui a pouco vão estender varal e trazer marmita. São coisas que a mim não ofendem, mas que a sensibilidade de uma senhora de classe média alta não tolera bem; e quem poderá condená-la se ela ainda por cima leva tudo com bom humor?

No final das contas o esculachado era mais rico que ela, o que indica que o problema era antes com seus modos que com sua renda. Um pobre arrumadinho não causaria o desgosto desse rico esculhambado. Mal sabia ela, contudo, que esse pecadilho, esse ato comum e partilhado por toda a humanidade de variadas formas, é o novo pecado contra o Espírito Santo; nem Deus pode perdoá-lo. Ao saber do comentário, o twitter da Dilma Bolada, essa linda, convocou o linchamento imediato e a gente conscientizada das redes sociais não deixou por menos. A comoção foi tanta, tantas declarações públicas de amor aos pobres, tantas vestes rasgadas, tanto repúdio àquela vagabunda sub-humana, que ela foi demitida. Amém! Que isso nos sirva de lição. Sabe o tipo de reserva e policiamento mental constantes que um político pratica em época de eleição, quando uma palavra mal pensada pode desagradar as parcelas mais medíocres e moralistas do eleitorado? Então, isso agora virou o mínimo exigido de todo mundo o tempo todo.

O comentário da pérfida professora não seria lido pela vítima – aliás, poucos fora de seu círculo o teriam visto, não fosse o linchamento virtual –, a vítima nem era pobre, e mesmo se fosse não teria sofrido nenhuma inconveniência. Da mesma forma, a desigualdade de renda do Brasil, a inclusão dos negros e o progresso da classe C continuam rigorosamente inalterados. O crime da professora foi um crime, nem digo de pensamento, mas de sentimento. Ela sentiu errado. Já a boa ação da Dilma Bolada e as boas intenções (sempre!) dos internautas resultaram num dano real: o fim de uma carreira. Seria o bem mais destrutivo que o mal?

(Não dá, obviamente, para eximir a administração da PUC. Há três cenários possíveis: se ela já queria demitir a professora e usou esse circo irrelevante como pretexto, foi desonesto, mas não fugiu do que as organizações sempre fazem. Se foi um ato servil de medo da opinião pública, é vergonhoso, mas ainda humano. Agora, se ela realmente considera que o esnobismo da professora é incompatível com o padrão ético da universidade, então... que Deus se apiede dessa católica instituição. Não sei o que é pior: que a proliferação dos códigos de ética e da consciência social seja apenas um golpe de marketing ou que as organizações os estejam levando a sério.)

O esnobismo está proscrito, não combina com o alto nível moral de nossos tempos. Mas o vício oposto a ele vai muito bem obrigado. Sim, há um sentimento oposto ao esnobismo: o refastelo na degradação. O orgulho da escória que dissolve a ordem estabelecida. Hordas bárbaras que destroem os símbolos do refinamento e da civilização (muito da qual depende do ímpeto esnobe - o conceito de "bárbaro" não surgiu à toa). Cagar nos cálices de ouro. Arruinar o programa alheio.

Isso, confesso, também me dá um certo prazer, o sentimento da desforra, o triunfalismo do “vamo invadir sua praia”, de finalmente entrar no clube que te rejeitava só para destruí-lo. Esse prazer é, moralmente, pior do que o do esnobismo. Este, afinal, visa preservar; aquele quer apenas destruir, mas para os democratas do espírito ele tem algo de admirável. Viva a farofa, o funk, o rolezinho e o crack! Se só poucos podem ter tudo, que todos não tenham nada, e a primeira parte é opcional.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Tudo menos o jovem preso ao poste



As paixões políticas se alimentam de pequenos eventos que parecem enormes e produzem a indignação popular momentânea. Como a capacidade de atenção é curta, em algumas semanas já foram devidamente mastigados, deglutidos e expelidos; ninguém mais se importa. Mês que vem ninguém mais ligará para o ladrão que foi agredido, despido e preso a um poste. Mas nos dias que correm, não se fala em outra coisa; ele serve muito bem como suporte para cada um um afixar sua causa política, acirrar os ânimos contra os malvados das redes sociais, demonstrar sua superioridade moral e ainda - no caso da raça dos formadores de opinião - influenciar o debate político, puxar a sardinha para seu lado.

Digo já para que não venham me acusar: sou contra o justiçamento popular. É uma prática condenável, incivilizada e que contribui para a deterioração da convivência humana; não deve ser aplaudido e não é a solução para problema social nenhum. É modo brutal de justiça, sem proporção entre delito e pena e com taxas altas de punição a inocentes.

Vejo - ó céus - que Rachel Sheherazade tem uma visão mais positiva que a minha desse tipo de reação popular. Se não chega bem a endossá-la como substituta legítima do processo legal, ao menos não condena o que fizeram os justiceiros nesse caso. E - ó céus novamente - ao invés de escrever um tratado filosófico a respeito, ela demonstrou sua indignação com um discurso inflamado, justamente aquilo que fez dela uma estrela entre os conservadores.

Acho lamentável que esse tipo de discurso esteja ganhando força entre pessoas mais educadas (ele sempre foi o modo básico e espontâneo de ver o mundo de toda a população; o estado natural do homem é o conservadorismo). Mas assim como o crime de um jovem pobre é compreensível (mas não justificável) dadas as condições materiais e psicológicas nas quais ele vive; assim como a reação dos justiceiros é compreensível (mas não justificável) dada a indignação que se sente ao se ver um criminoso escapar impune; também a opinião conservadora de Sheherazade é compreensível dado um sistema de Justiça estatal ineficaz como o nosso e uma cultura letrada que hostiliza quem quer viver honestamente e progredir na vida ao mesmo tempo em que desculpa os delitos de quem quer que seja visto como um "excluído". E que vai além: culpa os primeiros pelos crimes dos segundos.

A infinita compaixão e sensibilidade social dos observadores de esquerda cessa abruptamente na hora de lidar com quem discorda deles. Assim como o ladrão foi justiçado por observadores indignados, Rachel Sheherazade está sendo justiçada pelos defensores da moral e dos bons costumes aplicados ao discurso. Querem-na condenada; multada ou presa, tanto faz; o importante é que sinta na pele. Não, não são movidos por mero espírito de manada e raiva mal-direcionada; a justificativa é eminentemente técnica e racional: ela fez apologia ao crime. É por isso que essas mesmas pessoas também defendem a punição exemplar a todo mundo que defende o cultivo, a distribuição e o consumo de maconha. #soquenão (vocês é que me fazem indicar a ironia assim, vulgarmente: a capacidade de detectá-la é inversamente proporcional ao desejo de ficar indignado, que anda em alta).

Se Sheherazade, ou uma versão universitária sua, tivesse feito esse discurso numa assembleia estudantil, é bem capaz que eles mesmos, movidos pelo santo e virtuoso ódio ao justiçamento, a justiçassem bem ali. Já vi coisa similar. O desejo de fazer a justiça - ou mesmo punir o diferente; suspeito que se confundam muitas vezes - na base da indignação é natural ao homem, o que não quer dizer que seja bom. Não é fruto de ideologias ou de classes sociais, e nem pode ser apagado mediante conscientização. Se ela for punida, demitida ou o que seja, a mentalidade do justiçamento terá ganho; ainda que seja um justiçamento amparado pela lei. Todos nós, juntos e indignados, demos uma lição a quem violou nosso código de discurso.

O caso do jovem no poste serve também para qualquer um reafirmar sua superioridade moral, bradando contra os grandes males do mundo. Hoje em dia, quem quer ser visto como bom não tem escolha melhor do que condenar e denunciar o racismo ou o ódio de classes, mesmo na falta de evidências de que eles tenham algo a ver com o caso. 

Negros e pobres passeiam diariamente pela mesma rua sem ser alvo do ódio de justiceiros populares. Os próprios justiceiros são, na maioria das vezes, eles também pobres e de cores variadas (não é correto chamar a população brasileira pobre de negra, posto que é mestiça e que grande parte desses mestiços são caboclos e não mulatos), assim como a maioria das vítimas dos crimes cometidos por mestiços e pobres. Quem souber e quiser procurar, encontrará diversas filmagens (viva o smartphone!) de justiçamentos no Brasil - inclusive contra estupradores, o que mostra que a cultura brasileira não é tão favorável ao estupro assim. Enfim, os fatos são o que menos importa. Diga-me o teu time e eu te direi quem é aquele jovem: um demônio que teve o que merecia, ou a vítima inocente da elite racista. Se por acaso você estiver certo, não se anime: a apuração objetiva só aparece depois do assunto morrer. 

O jovem no poste não importa tanto quanto as causas que dele podem se servir. Hoje temos duas causas se digladiando, com objetivos muito diversos. A causa que move a esquerda é bater nos direitistas. Já o ideal que move a direita é bater nos esquerdistas. Não são classes sociais ou raças antagônicas. São todos membros de uma mesma grande classe social: a classe média/alta (curiosamente, na minha experiência a esquerda é mais rica que a direita) com algum estudo e tempo livre para se dedicar a ideias. Formaram campos rivais e adoram se odiar. Até ontem só existia o de esquerda, que monopolizava o discurso; agora a direita vem tirando-lhe fatias do mercado, e por isso a luta. A esquerda se firmou negando e/ou sendo condescendente com todos os costumes tradicionais e instintos normais do povo; a direita vem para reafirmá-los. Em ambos os casos, a arma preferida é a indignação moral pública, o que nem de longe se confunde com a moralidade real.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Brevíssima Introdução a Ayn Rand


















Uma fusão de Aristóteles e Nietzsche para os dias de hoje: uma visão heróica do homem, que vive apenas por si e sem culpa; somada ao primado da razão como conhecedora da realidade e guia das ações e ao respeito pelos direitos individuais. Isso resume a filosofia de Ayn Rand.

É raro gostarem dela fora do meio liberal. E de fato, não faltam motivos para a rejeição. A começar pelo descaso com que trata filósofos anteriores, lendo suas filosofias sem nenhum rigor acadêmico e julgando-os sem dó. Suas passagens mais virulentas são reservadas àquele que ela considerava o "repositório mais feio do ódio pela vida, pelo homem e pela razão: a alma de Immanuel Kant." ("Causality Versus Duty" em Philosophy: Who Needs It). Ela aceitava apenas dois precedentes filosóficos: Aristóteles, o maior filósofo de todos os tempos, e Tomás de Aquino, também muito bom (segundo ela, a parte teológica de S. Tomás fora provavelmente uma concessão dele aos tempos). Fora disso, quase só erro e maldade. Locke teve seu mérito na filosofia política, mas sua epistemologia era detestável. Nietzsche tinha um ou outro pensamento de valor, mas sua concepção básica do homem, anti-racionalista e negadora do livre arbítrio, também era muito má. (No caso de Nietzsche, é visível sua influência sobre ela, o que torna a rejeição ostensiva ainda mais problemática).

Há também a notória hostilidade à religião. A fé é a negação da razão: aceitação de uma autoridade como superior e substituta da própria mente e de suas ferramentas de conhecimento da realidade. Ainda assim, ela não era ateia militante: argumentos contra a existência de Deus ou contra religiões específicas não ocorrem quase nunca em sua obra; o que há com frequência um pouco maior é argumentos morais contra a moral religiosa do Cristianismo - única religião digna de nota para ela. E mesmo com tudo isso - talvez isso interesse a nossos leitores - havia algum respeito pela tradição intelectual católica, por ela lamentada na longa refutação que fez da encíclica Populorum Progressio do papa Paulo VI: "Há um elemento de tristeza nesse espetáculo. O Catolicismo já tinha sido a religião mais filosófica do mundo. Sua longa e ilustre história filosófica foi iluminada por um gigante: Tomás de Aquino. Ele trouxe uma visão aristotélica da razão (uma epistemologia aristotélica) de volta para a cultura europeia, abrindo o caminho para a Renascença. (...) Agora, testemunhamos o fim da linhagem de Aquino - e a Igreja se volta para seu antagonista primordial, que se encaixa melhor nela: o odiador da vida e da mente, S. Agostinho." ("Requiem for Man", em The Voice of Reason).

Há também, por parte de muitos, a percepção de que ela seria apenas uma defensora do capitalismo. E ela de fato o foi, mas essa não é a parte mais importante de sua obra e nem de sua filosofia. O capitalismo é, segundo a própria, a consequência política de sua filosofia metafísica e moral, que é o que realmente importa. Por isso mesmo ela não botava muita fé em alianças com liberais de outras correntes filosóficas e, especialmente, com os libertários de sua época. O vazio filosófico do libertarianismo, que consiste na afirmação de um princípio moral de não-agressão vindo de lugar nenhum, e que para além disso é compatível com o total relativismo ético (desde que não se viole o PNA, vale tudo), era-lhe repugnante. Para ela, a real aliança existe no campo dos valores e da filosofia, que compreende epistemologia, metafísica, ética, estética e política.

Poucos leitores conhecem sua obra de epistemologia (que é a filosofia do conhecimento: como o homem conhece o mundo e qual o grau de certeza desse conhecimento?), "Introduction to Objectivist Epistemology", em que ela visa a responder o que era para ela o problema mais importante da história da filosofia: a questão dos universais - qual o estatuto dos conceitos abstratos e como eles são produzidos. Sua solução é uma modernização do "realismo moderado" (que diz que conceitos captam dados objetivos da realidade, não são mera convenção, mas não existem fora da mente) com uma importante adição: o conceito existe num contexto informacional: distingue um certo tipo de coisa de todos os outros tipos conhecidos. Mudando o conhecimento, conceitos diferentes se fazem necessários. O conceito ou a definição não expressam uma essência completa da coisa, como se acreditou na filosofia clássica e medieval; expressa o grau de informação suficiente para distingui-la dos demais seres. Subjacente a tudo isso está a defesa aguerrida de que a mente humana é capaz de conhecer a realidade objetiva e que a razão é a única ferramenta que o homem tem a seu dispor para esse fim.

É a mensagem central da filosofia da Ayn Rand: o poder e o primado da razão. Disso se segue a ética e a psicologia que a subjaz, que são o assunto preferencial de sua obra. Afirmar o primado da razão significa afirmar o primado da mente individual e, portanto, o egoísmo. E aqui nos deparamos com o grande mal-entendido daqueles que não a leram: considerar que a moral do egoísmo, e a consequente rejeição do altruísmo, significaria ver como boa a pessoa que pensa apenas em si mesma e como má aquela que ajuda os outros.

Altruísmo não é benevolência. O homem bom é benevolente para com aqueles que ele ama e de maneira geral com todos os homens; mas isso não decorre de um dever primordial de ajudar e muito menos de se sacrificar pelo próximo. O valor do indivíduo - o bem de sua existência - não depende dele abrir mão de seus valores para servir a quem quer que seja. Sua mente não está à venda, seja por dinheiro ou pelos desejos e exigências alheios. Atos que geralmente chamaríamos de altruístas, como morrer para salvar um grande amor, podem ser racionais, e nesse sentido plenamente egoístas: refletem a avaliação racional do agente que aceita a própria morte porque sua vida não faria sentido sem o outro. Isso é o exato oposto de uma pessoa que efetivamente abre mão de sua vida, escolha por escolha, por crer que não tem o direito - ou que estaria sendo má - se agisse para buscar seus próprios objetivos.

Para quem olha de fora, esse papo de egoísmo parece ser a defesa do capricho individual como fundamento da ética; mais ou menos como faz o utilitarismo ou outras teorias subjetivistas, ou mesmo o egoísmo ético apregoado por certos liberais. Se o indivíduo gosta de se drogar até morrer, então isso é o bem para ele. Pois a ética da Ayn Rand é passível justamente da crítica oposta: o moralismo exagerado. Mesmo os gostos pessoais requerem critérios objetivos para se justificar; a vitória do capricho sobre a razão é um pecado grave em qualquer área. Isso tornava-a excessivamente negativa para com tudo que fugia a seu gosto pessoal. Não fazia distinção entre o racional e o razoável, aquilo que faz sentido, está bem fundamentado, mas admite dissensão e alternativas igualmente válidas; no círculo randiano, seu gosto era erigido em norma absoluta da razão. Por outro lado, foi essa mesma ênfase na primazia absoluta da razão que produziu ensaios magníficos como sua exposição dos benefícios da filatelia (colecionar selos postais) e a demolição retórica e moral do festival de Woodstock (ensaio "Apollo and Dyonisus" em Return of the Primitive). Não é preciso concordar com eles para aprender e mesmo se deleitar.

O homem racional é aquele que tem sua razão como seu critério absoluto de suas crenças e como guia para sua própria conduta; que não busca viver de segunda mão, às custas dos outros, nem no plano do intelecto (aceitando alguma autoridade como superior a sua própria mente) e nem no da vida prática (procurando, ao invés de produzir, viver do produto alheio), e nem no do sentimento (dependendo da aprovação ou da atenção alheia para suprir a autoestima que lhe falta). Ele é o verdadeiro egoísta: aquele que reconhece as demandas que a realidade impõe para a vida humana e coloca-se à altura do desafio, coisa que lhe traz uma satisfação muito maior do que aqueles que, por medo, entregam suas mentes e suas vidas ao cuidado alheio.

Rand defende, acima de tudo, uma visão heroica do ser humano, preocupado em viver a vida da melhor forma possível - da forma mais feliz possível - neste mundo, e capaz de alcançar os fins ambiciosos que vê como dignos de se concretizar. Corpo e alma constituem um todo único; nada no homem é puramente mecânico ou animal, e nada é a-sensual ou puramente abstrato.

Vale a pena apontar também como ela encara o amor romântico e a atração sexual, ambos muito importantes na sua obra filosófica e na ficção. Talvez pecando um pouco por intelectualismo, ela via na atração sexual um reflexo dos valores e do "senso de vida" do indivíduo. O senso de vida (sense of life) é a maneira básica do indivíduo pensar e lidar com o mundo; os juízos metafísicos e morais que não chegaram à formulação explícita, filosófica, mas que mesmo assim impactam na conduta e na disposição pessoal, até mais do que teses intelectuais. Otimismo, pessimismo; convicção na eficácia da própria vontade ou insegurança crônica; ver o mundo como um universo de oportunidades ou de ameaças; todas essas disposições existem nos homens, e não são só filósofos os influenciados por posições filosóficas. A conduta humana projeta valores, e são esses que estão em jogo na atração. Talvez por ser mulher, não deu muita importância à beleza como atrator; o homem racional e seguro de si, independente e superior aos demais, atrai as mulheres mais racionais e também superiores. A beleza física só entra por meio da mentirinha fácil que a ficção adora contar: a de que ela é companheira natural da virtude.

O sexo é o ato de celebração desses valores encarnados que se encontram. Homens e mulheres, embora genericamente iguais, têm uma relação de subordinação sexual: o homem busca ser exaltado por uma mulher, enquanto esta busca alguém a idolatrar (outra curiosidade: é por essa subordinação sexual que Ayn Rand era contra a ideia de uma presidenta mulher - "About a Woman President" em The Voice of Reason). Os conceitos da teologia reaparecem, não para fazer referência a uma realidade além deste mundo, mas ressignificados às experiências básicas que devem lhes ter dado origem.

A ordem social que se depreende dessa ética de exaltação do homem é o capitalismo: a liberdade para cada um se desenvolver da melhor maneira possível e o entendimento de que os desejos racionais humanos são harmônicos entre si. A esfera das interações sub-humanas, aquelas que se dão pela força bruta ou pelo engodo, deve ser reduzida o máximo possível. Ninguém tem, de largada, direito ao que outros produziram; embora as massas se beneficiem imensamente das criações e empreendimentos dos gênios da ciência e da indústria. Aceitar um sistema no qual a erradicação da pobreza não seja o foco principal é também promover uma sociedade com menos pobreza.

Por fim, ela também escreveu muito sobre estética (livro The Romantic Manifesto), a começar pela justificativa da arte. A cognição humana é conceitual: vai além da percepção sensorial, integrando várias delas por meio da abstração, o que resulta em conceitos que se aplicam a diversos casos particulares. O homem precisa ver concretizações dos conceitos que utiliza. A arte efetua essa concretização, visando não avaliar o mérito de diferentes conceitos e juízos (para isso basta o ensaio filosófico), mas sim apresentá-los de forma viva à experiência. Na arte, o artista dá forma concreta a um senso de vida. Isso permite a Ayn Rand integrar o juízo moral ao campo da estética (os três livros de ficção mais imorais da história da humanidade: D. Quixote, Madame Bovary e Anna Karenina) sem, contudo, poluir o juízo estético com critérios morais. Mesmo abominando sua visão de mundo, ela reconhecia em Tolstói um dos maiores escritores da história; foi capaz de dar vida como ninguém a certos juízos metafísicos e morais que eram, contudo, tenebrosos. Dada sua visão heroica do homem, é natural que sua predileção seja pelo Romantismo, pelos artistas que retratam o homem como ele poderia e deveria ser, e não necessariamente como ele é (a música, embora não retrate nada, também traduz valores ao plano sensorial).

Rand tinha uma personalidade muito forte, que se impunha facilmente sobre mentes mais fracas. Sua capacidade persuasiva aliada à intransigência para com discordâncias fez com que uma verdadeira seita se formasse ao redor dela; um fato lamentável mas que não detrai do valor de sua obra. Um a um, todos os pupilos mais inteligentes foram se afastando (ou sendo banidos e proscritos do grupo), de modo que só restaram os mais medíocres, inseguros, dependentes e servis; justamente o tipo humano que ela via como o produto de milênios de uma ética equivocada e má. Hoje em dia, esse grupo original se encontra decadente - vive dos direitos autorais -, mas a obra dela continua com o mesmo vigor original e a suscitar leituras e desenvolvimentos de diversos pensadores. Mais do que formar novos adeptos ortodoxos do objetivismo (nome que ela mesma deu à sua filosofia), ela está aí para nos fazer pensar e, mais do que isso, recuperar no plano dos ideais uma ética e uma visão do homem que transcenda o derrotismo niilista e não requeira a crença num além-mundo.

Deixei seus romances de fora propositalmente. Merecem um tratamento à parte.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Os Direitos do Rolezinho

Sociólogos ainda não chegaram a um consenso sobre o rolezinho. São jovens pobres querendo apenas brincar, fazer um barulho; como qualquer jovem. Ou então representam uma classe oprimida que tenta se fazer ouvir. No fundo, tanto faz. Reivindicação social é coisa legítima; lazer sem maiores pretensões também.
Mas olhemos o outro lado da questão: o shopping center. Ele tem o direito de existir? Em outras palavras: lojistas têm o direito de trabalhar, e frequentadores têm o direito de passear num espaço confortável, seguro e o qual sustentam voluntariamente? Não estou perguntando se shopping é uma coisa bonita, ou se seria a opção de um povo culto e educado. Estou perguntando se, dado que esse é o desejo de muitos, se eles podem exercê-lo. Em nossa sociedade, a resposta é sim.
Sendo assim, a administração do shopping tem o direito de impedir usos de seu espaço que inviabilizem seu funcionamento. A reunião programada de milhares de jovens ouvindo música alta, lotando todas as passagens e não comprando nada faz justamente isso. Portanto, o shopping tem o direito de impedir que ela ocorra (o que não lhe dá carta branca para usar violência).
Para alguns, os méritos da causa rolezeira devem ter prioridade sobre os desejos de administradores, lojistas e clientes. Mas esses mesmos observadores, se forem consistentes, perceberão que há muitas causas – quiçá legítimas – circulando por aí, e que não dá para conceder direitos a uma e não a todas.
Que tal um rolezinho vegano em churrascarias? Centenas de veganos se reúnem, lotam a casa e pedem apenas água a tarde inteira. O investimento feito pelo dono, o emprego de quem ali trabalha e os clientes a quem a casa visa a servir serão sacrificados porque um grupo desaprova aquela prática e resolveu se manifestar.
Um passo além: um grupo evangélico lota uma peça de teatro considerada imoral e vaia o tempo inteiro, impedindo a performance. Aposto que os mesmos sociólogos que veem com bons olhos o rolezinho funkeiro teriam opinião mais ambivalente quanto ao rolezinho evangélico; que não deixaria de ser, afinal, manifestação de uma classe baixa perante uma elite que a exclui. No fim das contas, valeria tudo; qualquer causa – real ou apenas imaginada por intelectuais – poderia se impor sobre a vida prática de qualquer um.
Simpatizo com o rolezinho, embora veja-o mais como lazer provocador do que como “luta de classes”. Acho também que uma dose de desconforto pode fazer bem à classe média e à elite, quem sabe enfraquecendo preconceitos. Podemos debater longamente os méritos dessa e de outras causas – a leitura marxista da sociedade, os direitos dos animais, o papel da religião na cultura. Tudo isso importa. Mas nada disso deve exigir o sacrifício do direito mais fundamental de decidir acerca da própria vida com os próprios recursos, que é o mecanismo básico de funcionamento da sociedade, anterior a discussões filosóficas. Eu adoraria ver um shopping acolher o rolezinho. Não posso, contudo, negar-lhe o direito de barrá-lo. 
Publicado originalmente no Diario do Comércio em 24/01/2014.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre o Trivium e certas trivialidades

Tenho algumas observações a acrescentar ao último texto de Ronald Robson, no qual fui honrosa e talvez imerecidamente mencionado. Evidentemente, eu e Ronald concordamos que
a 1) tendência a introjetar uma série de posturas  desprovidas de articulação mais refinada frente à nossa situação concreta, aos nossos problemas pedagógicos e civilizacionais, 2) a ausência de discussão da suposta validade intrínseca dessas posturas (sejam métodos propriamente ou não), 3) a letargia advinda de um estetismo da alta cultura, que se compraz mais no encômio do que na prática, e 4) a própria indiferença à análise do problema da adequação entre o sentido da cultura e a transitoriedade das conjunturas levam-nos, mais uma vez, a trair qualquer compromisso sério que queiramos estabelecer com o nossa situação e seus verdadeiros anseios.
E essa é a suma do texto e das intenções de meu colega. Fica claro, portanto, que este texto não apresentará exatamente o que se chama de "discordância", mas algo mais próximo da ideia de "retificação" ou até "desenvolvimento" da mesma tendência fundamental. Talvez eu não faça mais, na verdade, que esclarecer aquilo que o artigo anterior deixara encoberto ou em meia-luz.
 
O apreço pelo trivium pode basear-se, é claro, num esforço apologético inconsciente - e neurótico. Recentemente comentei com um amigo que certos hangouts católicos usam nomes em latim para expressar um zelo pela tradição que, ao conferirmos os casos gramaticais desses mesmos nomes, percebemos que eles não possuem de modo algum. Um católico que faz pouco caso de aprender a língua da tradição, enquanto se esforça por representar essa mesma tradição com sua própria pessoa, é definitivamente um neurótico, um cindido. Diante da impossibilidade de deixar de ser o que é, opta pela alternativa mais eficaz a curto prazo: fingir. Dum lado, aquilo que ele gostaria de ser, mas cuja essência nem saberia precisar; doutro, a imundície que vê em si mesmo e ao seu redor. A realização do ideal pressupõe sua concretização; concretizá-lo requer conhecê-lo em si mesmo, em sua natureza íntima; conhecê-lo exige um esforço de anos, talvez décadas. A alternativa é tomá-lo por características superficiais, talvez acidentais ("voltar à Idade Média", que não é senão uma circunstância histórica que lhe parece simbolizar esses ideais), que facilitam a imitação - uma solução imediata e indolor. O emplasto Brás Cubas.
 
Mas os admiradores das artes liberais podem justificar-se em terreno mais seguro. Longe de ser um modelo circunscrito à Idade Média, o esquema do trivium já existia na Antiguidade e durou, com fixidez impressionante, até fins do século XVIII, quando começou a ser gradualmente mutilado pelas pretensões enciclopedistas e por doutrinas espontaneístas e sensorialistas. A essência do trivium, como fenômeno intelectual duradouro, é a convicção de que o domínio da linguagem é condição imprescindível para qualquer estudo posterior. Pode-se especular que a lógica caiu, por volta do século XVII, porque foi dissociada da linguagem, transformada num fetiche ou numa ciência distinta - em outras palavras, foi excessivamente associada à filosofia como disciplina específica. Mas o trivium só se desfez completamente, tornando impossível qualquer regeneração espontânea, quando a retórica foi decepada da linguagem literária, tornando-se mero adorno - uma joia de perua - e, portanto, causando a destruição da pedagogia dos gêneros e do decorum. A partir desse momento, Goethe não era mais possível - ou pelo menos não era mais verossímil. Nesse sentido, não seria exagero afirmar, com Curtius, que a civilização medieval só acabou no século XIX. Ora, um esquema pedagógico que durou tanto tempo e formou tantos de nossos ancestrais não pode deixar de despertar alguma admiração razoável - especialmente quando depois dele veio tanto lixo e tanta confusão.
 
[Quanto aos grandes intelectuais do século XX, qualquer um que decida ignorá-los (no sentido de não usá-los como modelos) fá-lo licitamente, se alegar prudência. Olhada de perto, a menor formiga pode parecer enorme: é preciso algum afastamento para julgar seu real valor e, só então investigar quais foram as condições de sua formação. Eu particularmente opino que descobriremos, algum dia, que esses homens foram excepcionais, no sentido de exceções; que sua educação foi bem diversa da tendência majoritária, e que se ligou às práticas adotadas pelos séculos anteriores.]

Isso quer dizer que as artes liberais não consistem de um currículo totalmente fixo, ou de um único método pedagógico: pode-se interpretar nessa chave o apelo de Ronald a um sentido por trás desses valores e métodos. Essa expressão, porém, periga tornar-se demasiado vaga, e justificar qualquer tipo de estudo disperso - o feitiço se voltaria, então, contra o feiticeiro maranhense, atacando por outro flanco a mesma virtude que ele defende em seu texto. Qual é a natureza desse sentido geral? Como saber se o estamos seguindo? Há nele algum elemento concreto permanente?
 
Primeiro, é preciso evitar a concretização impulsiva, isto é, a busca de referências colhidas ao acaso pelo simples sentimento de urgência, que leva alguns a lerem Macróbio e Bernardo Silvestre - como se precisassem ser eruditos para obter uma educação liberal. A erudição é tarefa dos estudos avançados e específicos, e não dos exercícios preparatórios. Outra possibilidade é a confusão entre uma cultura, uma concepção filosófica, uma religião e um período histórico. Essa talvez seja, mais precisamente, a neurose do apologeta discutido anteriormente. Ele antes projeta uma imagem da Idade Média, do que realmente se dedica a compreendê-la; não se pode dizer, então, que seu defeito seja querer aplicar as mesmas soluções a circunstâncias distintas, mas (o que é pior) nem sequer saber quais foram exatamente as soluções aplicadas aqui ou lá. Os defensores do "trivium" não pretendem, suponho eu, ensinar tudo em latim - mas era assim que se fazia na Idade Média! Em suma, o apologeta busca uma saída simples e objetiva, mas não em fontes históricas ou na filosofia, e sim em si mesmo - nas suas atuais concepções de como tudo deveria ser. Tendo feito essas ressalvas, pode-se dizer que sim, há alguma concretude na forma geral do trivium. Essa concretude coincide com a evolução da nossa própria cultura.
 
Quero dizer, com isso, que faria pouco sentido buscar um currículo ou metodologia de base na China, quando nascemos dentro de uma tradição cultural que evoluiu de seu próprio modo. Não há motivo para reinventar a roda, ou buscar, por exemplo, novos grandes poetas antes de conhecer os antigos - nos quais esses novos invariavelmente se baseiam. Conheci uns professores de literatura brasileira que se empolgavam muito com a possibilidade de descobrirem um "novo Drummond", nem suspeitando que não haviam ainda descoberto o velho. Pois quem é o Drummond de Claro Enigma, o odiado Drummond "neoclássico"? A Máquina do Mundo, de onde vem? Não há nada mais suspeito que um crítico literário que lê todas as novidades dos salões, mas não tem nada a dizer sobre Píndaro ou Ovídio. Esse é o caso de todos os nossos, com exceções que mais suponho, por verossimilhança, do que conheço.
 
Nada disso nos obriga ao abandono da província. Trata-se, ao invés, da redescoberta da província, não como "cultura primitiva" (no sentido elogioso dos românticos piegas), mas como nova matéria: um metal diferente no qual a arte antiga, se bem aplicada, produzirá novas armas. O próprio convite de Robson a valorizar João Francisco Lisboa, classicista de escol, é uma confissão de que os clássicos europeus não foram impróprios a nossas circunstâncias ou inférteis em nosso solo. Descobrir a província requer, sem dúvida, entendê-la; e entendê-la requer tornar-se um pouquinho europeu - no sentido de absorver a base da cultura europeia, e não de permanecer "atualizado" com qualquer porcaria que lá se faça. Eis o aparente paradoxo: para que surja a província, a metrópole precisa ser respeitada. Deixando de lado tanto a cópia servil quanto o desprezo afetado, aprenderemos a devoção filial: é da metrópole que nos nutriremos nos primeiros anos, é dela que aprenderemos a dar os primeiros passos e a falar as primeiras palavras. E é dela também que nos emanciparemos, como Lisboa ou d'Assis, com amor e naturalidade. Não como quem renasce das cinzas, não como quem esquece donde veio; mas como quem parte para uma nova jornada, sob as lágrimas espontâneas da mãe e a bênção, meio orgulhosa e meio conformada, do pai.